Um deputado eleito pelo círculo de Braga que mora nas Caldas da Rainha, dá aulas, em Lisboa, “em três escolas do ensino superior”, detesta “a desonestidade e a mentira” e diz que, um dia, assumirá “as suas responsabilidades”…



(…)

(…)
Expresso-Única, 15.05.2010

O Expresso dedica-lhe a capa da Revista e oito páginas. Sucede que António José Seguro, no seu registo parlamentar de interesses, declara que é “colaborador do Jornal Expresso” e da SIC. A entrevista publicada, promocional, deverá provavelmente fazer parte da avença. Mas repare-se mais: António José Seguro também declara, no seu registo de interesses, que tem como actividade principal… a docência universitária. Mais: informa que dá aulas “na Universidade Autónoma de Lisboa, no Instituto Superior de Comunicação Empresarial e num curso de pós-graduação no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas”. É obra! Dá aulas em três escolas do ensino superior e ainda consegue ser… deputado. Mais: é deputado por Braga e mora nas Caldas da Rainha. Este rapaz, que tanto abomina a “desonestidade e a mentira”, tem futuro!…

A minha memória mais intensa do dia 25 de Abril de 1974…

cast2404.jpg

Se for vivo, suponho que sim, terá oitenta anos (nasceu em Novembro de 1929). Dá pelo nome de António Castanheira Neves e fez carreira como professor da Faculdade de Direito de Coimbra, onde, como aluno, o conheci, no dealbar dos anos setenta do século passado. Foi o professor mais incompetente que tive na Faculdade: não conseguia comunicar, nem se fazia entender. Os alunos saíam das aulas a perguntar uns para os outros: o que é que ele disse? E riam. O homem era completamente destituído de competências comunicacionais, mas fez toda uma brilhante carreira universitária a escrever e a publicar para os mortos, que os vivos não faziam parte do seu mundo. Castanheira Neves era um produto refinadíssimo do conúbio entre um certo salazarismo envergonhado (fora, de resto, procurador à Câmara Corporativa) e a igreja católica, que representou em diversas instâncias. Não lhe quero mal: tenho pena dele, acho que era, como professor e como ser humano, um tipo profundamente infeliz, que só disseminava à sua volta a infelicidade. Nada aprendi com ele, a não ser a distrair o tédio…

No dia 25 de Abril de 1974, quando chegou à Faculdade para dar aulas (como se nada tivesse, entretanto, acontecido no país), Castanheira Neves só não foi agredido (e, porventura, barbaramente agredido) porque um grupo de ex-alunos, entre os quais eu me encontrava, o defendeu e o escoltou. Todos ali o odiávamos ou detestávamos, mas… o bom senso triunfou. Ele era tão medíocre e tão grotesco que não merecia que o transformássemos em mártir da revolução. E nada de grave ou irreparável lhe aconteceu. Ouviu uns insultos, mas ninguém lhe tocou. E jamais me esqueci ou esquecerei do pânico que vi nos seus olhos quando os alunos o rodearam e começaram a invectivá-lo. O pobre homem deve ter pensado que dali já não saía vivo. Mas saiu… e sem um arranhão. Pelo menos, na pele. Só não sei se algum dia recuperou do susto do 25 de Abril…

Irá pronunciar-se, exactamente, sobre quê?…

otero2404.jpg
Expresso, 24.04.2010
Nos anos sessenta e setenta, o terror dos alunos da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra dava pelo nome de Rogério Guilherme Ehrhardt Soares. Nas provas de exame, muito especialmente, nas orais, ele deleitava-se em confrontar os pobres examinandos com questões absurdas, muitas das quais pouco ou nada tinham que ver com o direito. E, quem não fosse capaz de esboçar uma resposta minimamente estruturada e inteligente… era, sumariamente, “dispensado” da prova, digo, “chumbado”. Gerações de protojuristas provaram do fel e não gostaram. Naquela época, os professores universitários, sobretudo, os catedráticos, eram… inimputáveis.
Quatro décadas volvidas, não sei, francamente, se alguma coisa mudou nas universidades portuguesas, muito especialmente, nas escolas de direito mais tradicionalistas. Ao ler o enunciado da prova de Direito Constitucional II, que tanta celeuma está a provocar, senti-me regressado aos anos sessenta e setenta. E nem me reporto, apenas, ao conteúdo politicamente provocatório da primeira questão. Tecnicamente, o teste é, todo ele, um aborto. Como se corrige uma prova organizada e apresentada nestes termos? Os alunos conheceriam os respectivos critérios de correcção? Ou esses critérios nem sequer estariam explicitados? A ideia com que fico (espero estar enganado) é que estamos no terreno da pura arbitrariedade docente: o professor corrige a prova como quer e como lhe apetece e os alunos comem e calam. A única baliza objectiva parece ser a cotação máxima atribuível a cada uma das três respostas pedidas aos alunos: cinco, sete e oito valores, respectivamente. A partir daqui, o professor é soberano: valora o que entender, corrige como lhe der na realíssima gana. Se as provas fossem entregues, para correcção, a outro docente, as classificações seriam, muito provavelmente, distintas. Muito distintas. Era assim há quarenta anos (e há quatrocentos); receio, por este exemplo, que continue a ser.
Marcelo Rebelo de Sousa, como se sabe, adora dar notas. Dá notas a tudo, a olhómetro. Fico na expectativa da nota que ele irá dar ao teste do seu colega Otero. Marcelo Rebelo de Sousa é o presidente do… Conselho Pedagógico da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa…

Um “teste bestial” e um “catedrático” de direito que, curiosamente, já defendeu.. Sócrates…

bes2304b.jpg
bes2304a.jpg
DN, 23.04.2010
Alguns catedráticos de direito deste país foram meus colegas de curso e de turma, em Coimbra. Uns respeito; outros, nem por isso. Este Otero ou Otário… não sei quem seja, mas suponho que terá feito Direito… em Lisboa. Seja como for, é muito mais novo do que eu, pelo que jamais poderíamos ter sido colegas de turma, mesmo que ele tivesse estudado em Coimbra. Não comento, por comiseração, o teste a que ele submeteu os alunos (que reproduzo em baixo). Mas sugiro que consulteis esta tão irónica notícia, de 2008. A “bestialidade” de Otero tem pergaminhos…
teste2304.jpg

Improviso para consagrar mais um milagre da natureza, à portuguesa…


Um escaravelho da família dos
rola-bosta ou
(à portuguesa)
vira-merda
chegou a
professor catedrático da
faculdade de direito da
universidade de lisboa
nem kafka antecipou
uma tão extraordinária e medonha
metamorfose
garantem as agências noticiosas
que nunca um escaravelho
oferecera à ciência jurídica
tantas pernas traseiras
e tanto excremento
para definitiva consagração da escola
dita superior
só falta mesmo que o rola-bosta
ou (à portuguesa) vira-merda
junte as apetências biológicas
à ratazana de turno.

Ademar
23.04.2010

Quando, ao folhear um jornal como o Público, esbarro com anúncios deste género… penso logo que os nomeados morreram…

dou1304.jpg
Público, 13.04.2010

Digo-vos: quem tem “familiares” capazes de publicar um anúncio como este… não precisa de inimigos, nem de detractores. Devo referir que, embora os apelidos não me sejam estranhos, não conheço (ou julgo não conhecer) a “Excelentíssima Senhora Doutora” Ana Maria…

“O gajo é lento!”…

gil1503.jpg

Jantávamos. Quando, inesperadamente, apareceu José Gil no Jornal das Nove, da SICNotícias, pedi aos meus filhos mais novos que… prestássemos atenção. O Henrique (11 anos) fingiu adormecer. O Francisco (17 anos) fingiu que ressonava. Interrogado por Mário Crespo, José Gil lá foi debitando as vulgaridades do costume. No fim, pedi ao Henrique um comentário. Saiu, fulminante: Pai, o gajo é lento! E o Francisco acrescentou: estava sempre a repetir-se!
José Gil ainda não aprendeu o óbvio: a televisão é um meio estranho à filosofia e ao professorado. Se fosse um pouco mais clarividente ou um pouco menos vaidoso, recusaria liminarmente todos os convites para ser interrogado em directo por um Mário Crespo qualquer. Os ritmos da televisão não conjugam com os ritmos do pensamento ruminante. O Henrique, nos seus onze anos, poderia ensinar José Gil a dialogar um pouco melhor com o espelho…

Mais dez milhões de ideias como esta e estaremos salvos!…

ide0603b.jpg
i, 06.03.2010
Salvação, implementação, inovação, organização, resolução, gestão, colaboração… Não sei se Portugal caberá inteiro nesta grande e original ideia, mas esta grande e original ideia caberá, certamente, em Portugal. Pior do que isto só o Raposinho a evacuar sobre o “eduquês”…
A universidade portuguesa sempre sofreu da próstata…