Uma escola, um aluno…

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Há vinte anos atrás (não foi ontem) conheci em Terras de Bouro (talvez o mais belo concelho de Portugal continental) uma escola que tinha apenas um aluno. Não importa em que freguesia ou em que lugar. Havia um casebre que servia de escola primária, havia uma professora (que raramente lá punha os pés) e havia um rapazinho, que fazia de aluno. Quando visitei a ?escola?, a professora já estava a faltar havia várias semanas (e não havia ninguém que estivesse disponível para a substituir). O miúdo, com quem conversei, vivia a poucos metros da escola e era, pareceu-me, muito vivo e inteligente. Não sei o que lhe aconteceu, escolarmente falando; terá completado o primeiro ciclo? Naquelas circunstâncias, não acredito. Hoje, provavelmente, será pastor ou terá emigrado, como a maioria dos terrabourenses. Se tivesse tido a sorte (ou o azar) de nascer e crescer no litoral, é muito possível que hoje fosse licenciado e estivesse no desemprego, como a maioria dos licenciados portugueses. Seria mais feliz? Poupo-vos à metafísica do salazarismo?
Naquela aldeia, não havia mais crianças. E os pais da criança que eu conheci já tinham ?fechado a loja? da procriação. Coloquei o problema ao Presidente da Câmara, um dos autarcas mais extraordinários que eu conheci: não fazia sentido fechar aquela escola? Ele torceu-se todo, como se diz num certa gíria. Se aquela escola fechasse, o miúdo nunca mais frequentaria o sistema de ensino; os pais não o deixariam frequentar outra escola. Mal por mal, antes assim. Talvez aprendesse a ler e a escrever, talvez conseguisse terminar o 1º ciclo, talvez?
Digo isto para que se perceba o meu ponto de vista: a decisão de fechar uma escola ?primária? (por falta de alunos ou de ?condições?) será, sempre, neste país, uma decisão extremamente delicada e problemática. Uma decisão cuja bondade só caso a caso poderá ser aferida (e, mesmo assim, com muitos pontos de interrogação). Por isso é que me dói ver a Ministra da Educação falar do encerramento de mil e tal escolas ?primárias? com uma ligeireza que chega a pisar as fronteiras da inconsciência. A senhora não conhece o país ?real?, não conhece as populações e não conhece os autarcas. Em muitas localidades, fechar a ?escola primária? significa atirar para fora do sistema de ensino muitas e muitas crianças. Eu sei que a Ministra, cuja recta intenção não ponho em causa, está convencida de que isto não sucederá. Chego a ter pena dela: ainda não percebeu que o país rural não é um teatro de fantoches, manipulável por despacho?

A “monodocência” como crime educativo…

Como é que os professores (e os pais) podem mudar os professores? Dialogando, colaborando, exigindo, confrontando-se e avaliando-se.

A escola que hoje temos é, rigorosamente, o contrário da escola de que precisamos.

Cada professor considera-se o princípio e o fim da escola. Na sua sala de aula (ou “jaula”), ele não admite intromissões, nem parcerias, nem observações que possam questionar a sua sacrossanta “autonomia profissional”. Que ninguém o confronte com as suas limitações científicas ou metodológicas, que ninguém o perturbe no exercício do ritual docente (que ele é capaz de repetir, monocordicamente, trinta e tal anos a fio, sem “contraditório”, como se aspirasse à condição de monarca absoluto).

A triste e patogénica realidade do isolacionismo e umbiguismo docentes (que atravessa, deve dizer-se, todos os escalões do sistema de ensino, “superior” e “inferior”) atinge as raias do paroxismo no 1º Ciclo, onde vigora esse extraordinário princípio civilizacional da “monodocência”: um único professor para todas as áreas curriculares. Ele tem que dominar muito bem os métodos de iniciação à leitura e à escrita (e há tantos), ele tem que gostar de matemática (para poder cultivar nos alunos o gosto pela matemática), ele tem que saber um pouco de música (a educação musical faz parte do currículo), tem que dominar as técnicas de expressão plástica, etc, etc, etc. O princípio da monodocência assenta numa ficção e organiza-se na aldrabice. A esmagadora maioria dos professores “monodocentes” do 1º Ciclo é satisfatoriamente competente (quando é) numa área curricular – nas outras, faz o que pode (quando pode ou tem vontade de fazer). Donde resulta que a formação das nossas crianças, vítimas do regime da “monodocência”, é, em geral, uma formação coxa e pobremente estruturada.

Percebe agora o leitor por que estamos tão mal situados no PISA e noutros estudos internacionais? A monodocência no 1º Ciclo é um crime educativo. Extingui-la, não resolverá, certamente, todos os nossos problemas, mas será um primeiro passo. Indispensável, para que outros passos possam ser dados…

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