Estes miúdos, que querem ser “famosos”, já nascem “maduros, pacientes e indiferentes”. Não precisam de família, nem de escola: a televisão educa-os…

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Correio da Manhã, 20.03.2010
Quer ser famoso para fazer chegar “o seu trabalho” às pessoas. Espero que o “seu trabalho” não seja apenas, narcisicamente… posar-se ao espelho…

Uma perigosíssima delinquente de… 10 anos de idade…

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Correio da Manhã, 19.03.2010

Há quem saiba ou tente lidar com crianças “especiais” e quem não saiba (ou não tente). Crianças como esta, muitas, sempre houve na Escola da Ponte. Recordo-me, por exemplo, do F. Era um menino selvagem, filho da miséria e de pais alcoólicos. Um dia, numa das suas crises de fúria, também me bateu e arranhou e mordeu. Poderia ter reagido, poderia ter sustido a agressão: não o fiz. Deixei que ele batesse e se cansasse de bater. Quando parou, fiz-lhe uma festinha e perguntei-lhe apenas se estava mais calmo. Ele olhou para mim, com os olhos esbugalhados, e apenas me perguntou (grunhiu) uma coisa que nunca mais esquecerei: vais-me bater? Eu disse-lhe.: não, quero apenas conversar contigo. E levei-o para o meu gabinete e, calmamente, conversei com ele. Chorou. E ficámos amigos para sempre.

Não conto isto para me pôr em bicos de pés ou alardear uma sabedoria ou uma coragem que, infelizmente, não me assiste. Mas esta notícia revolta-me. Simplesmente, porque não deveria ser notícia. E nunca nestes termos…

Esta criança não é um monstro. É, apenas, uma criança, que a humanidade, muito provavelmente, abandonou…

Bom senso, precisa-se! As sociedades da obediência (lembremo-nos, por exemplo, da Alemanha dos anos trinta) sempre produziram as maiores crueldades e aberrações…

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Pública, 14.03.2010
Vários réus declararam em Nuremberga, tentando justificar a sua cumplicidade com os crimes mais hediondos do regime nazi, que sempre tinham sido ensinados a obedecer e que tinham aprendido a não contestar nem discutir as ordens e as regras impostas pelos “superiores”, por mais iníquas que elas pudessem ser. As sociedades totalitárias alimentam-se do pensamento único e de uma escola autoritária. Hoje, em Portugal, parece que muitos desejam e defendem uma escola assim. Salazar dizia: “se soubesses o que custa mandar, gostarias de obedecer toda a vida“. Felizmente, muitos aprenderam a desobedecer a Salazar, inclusivamente, na escola, e foram eles que fizeram o 25 de Abril…

Quem tem medo dos alunos não pode ter alunos. Não há educação (nem ensino) sem empatia…

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Correio da Manhã, 14.03.2010
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DN, 14.03.2010
Quando leio estas coisas, sinto-me um extraterrestre. Nunca tive medo dos alunos e nunca nenhum, em muitos anos, me desrespeitou. E já tive turmas… que outros colegas consideravam terríveis. E nunca senti necessidade de “pôr na rua” um aluno. Não digo isto para exibir atributos extraordinários. Tenho a certeza de que a maior parte dos meus colegas poderá dizer o mesmo. Como também tenho a certeza de que os alunos, em geral, respeitam quem os respeita. O problema é que há, nas escolas, “professores” que erraram a profissão e que, todos os dias, significam aos alunos que têm medo. E que confundem poder com autoridade. Pergunto-me muitas vezes que pais são ou serão…

“Uma vez arrancámos-lhe um sorriso. Quando sorria… era outra pessoa”…

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Público, 12.03.2010
Os justiceiros do costume vão apontar o dedo e condenar sumariamente os alunos, os pais, a direcção de escola, o ministério da educação, o país, o planeta, por grosso ou a retalho. A culpa, uma culpa qualquer, terá de ser exibida no pelourinho do fanatismo mediático. Mas situações como esta só me impõem perguntas, muitas perguntas. E receio que algumas delas não tenham resposta…

O “eduquês”? Sim, exterminemos o “eduquês” (seja lá isso o que for) e regressemos, gloriosamente, à televisão a preto e branco…

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Expresso, 06.03.2010
Nem tudo está perdido: este rapazinho sobreviveu ao “eduquês” e à… pedagogia. E consegue escrever três parágrafos sem ofender, gravemente, a gramática. Que repita banalidades que, há trinta anos, já eram banalidades… pouco importa. Há trinta anos, este rapaz ainda usava fralda e chupeta. É natural, por isso, que não se lembre. E que associe a ineficácia da escola contemporânea a essa nebulosa retórica que costuma dar pelo nome de… “eduquês”. A ignorância é sempre muito atrevida…
Pena que este rapazinho, que sobreviveu (extraordinária façanha!) ao “eduquês”, escreva sempre mais depressa do que pensa e pense tanto com o pénis…

O Público faz hoje vinte anos…

Há vinte anos que leio o Público diariamente. Mesmo no estrangeiro, nunca deixei de comprar o jornal… e, regressado à terrinha, era no Público que me punha a par do que, entretanto, acontecera no país e no mundo. Os principais jornalistas do núcleo fundador do projecto do Público (Vicente Jorge Silva, Nuno Pacheco, José Manuel Fernandes, Joaquim Fidalgo, José Queirós, para só referir alguns) tinham sido meus colegas no Expresso. Perceber-se-á, por isso, a atenção com que sempre acompanhei o percurso do jornal e que, no Público, tenha encontrado guarida para a publicação de alguns artigos (como, actualmente, acontece com a minha irmã). Folheando os meus arquivos, descobri o primeiro artigo que publiquei no jornal, em Janeiro de 1992. Recupero o título e um excerto. E assim me associo hoje à comemoração do vigésimo aniversário do Público…

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Público, 08.01.1992

Posso garantir-vos que todos os livros são óptimos e são sábios, desde que nos limitemos a aplicar os seus ensinamentos à educação dos filhos… dos outros…

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Público, 04.03.2010
Educar é hoje, mais do que nunca, um processo civilizacional. E a dúvida é a parteira de todos os avanços civilizacionais…
Ninguém educa (ou deseduca) sozinho.
Diz-me a que rebanho pertences e dir-te-ei como educarás (ou deseducarás) os teus filhos…