Diário em forma de silêncio (36)…

Eras tu, quase sempre, que conduzias as minhas mãos. Não que eu precisasse de que me ensinasses o caminho, mas, apenas, porque não queria caminhar na ausência ou distracção dos teus olhos. Eu sabia que o movimento subtil das minhas mãos enfeitiçava e enternecia o teu desejo, refinando-o. E tudo no meu corpo, como sabes, exigia a delicadeza dos teus gestos, quando entravas por mim. Por isso, deixava tranquilamente que me conduzisses. E até que me castigasses. Eu era o teu brinquedo. E deixava-me brincar…
C.A.

Diário em forma de silêncio (35)…

A fronteira da neurose, em mim, como sabes, é muito ténue. Que procurei nos homens a que me confiei? A confirmação (a pergunta, de ressonâncias psicanalíticas, quase me repugna) do lado destrutivo do impulso erótico? Percebi, por eles, que era diferente das outras. Era-me estranho o pudor, esse pudor que as mulheres, pelos vistos, cultivam, como ingrediente talvez de sedução. Eu nunca soube de culpas ou estratégias defensivas de género. Há uma mulher em mim que, provavelmente, nunca o foi. Talvez o isolamento (ou algum abuso precoce, que continuo a recalcar) me tenha, de facto, conduzido à desaprendizagem do pudor. Acompanhei-te em tudo. Acompanhei-vos em tudo. E, se não fui mais longe… foi, apenas, porque as sombras projectadas no interior de nós (há um terriório comum em que habitamos) delineavam uma fronteira invisível que não estaríamos e, provavelmente, jamais estaremos em condição de ultrapassar. Talvez Freud, afinal, tivesse razão…
C.A.