“Life is a video game”…

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É cada vez mais difícil ser pai e educador…
Tenho a sorte de ter um filho adolescente que adora jogar futebol e que é capaz de trocar quase tudo pelo prazer de pontapear uma bola. Quando vejo os colegas dele fechados em casa a simular assaltos e a “matar polícias” em jogos de video, mais ainda me apetece alimentar a paixão do Francisco pelo futebol.
De vez em quando (a pressão dos pares, na adolescência, é terrível), o Francisco “namora” certos jogos de video. O último chamava-se “GTA San Andreas”. Percebi que era o jogo da moda entre os colegas. Vi a “bula” e fiquei assustado. É um jogo que simula assaltos e assassinatos de polícias, numa cadeia verdadeiramente infernal de violência gratuita. A empresa que comercializa o jogo, farisaicamente, desaconselha a sua venda a menores de 18 anos. Não sei, francamente, se é uma estratégia de promoção do produto…
Hoje, no excelente “60 Minutos” da CBS, vi uma reportagem sobre um miúdo negro norte-americano, Devin Moore, que, inspirado num jogo de video chamado “Grand Thetf Auto” (que consumia obsessivamente), matou 3 polícias no espaço de um minuto. O miúdo limitou-se a transpor para a realidade um exercício que, diariamente, simulava na sua consola. Quando lhe perguntaram por que tinha feito aquilo, terá respondido tranquilamente: “life is a video game!”.
Perguntei ao Francisco se conhecia o jogo. Ele não hesitou: “claro, é o jogo que tu não me deste no dia dos meus anos!”. A ligação não me ocorrera: GTA=Grand Theft Auto…
Tenho a certeza de que, a esta hora, milhares de adolescentes em Portugal estão a jogar em suas casas (ou nas casas dos amiguinhos) o Grand Theft Auto, contando polícias mortos. A vida, para eles, de facto, não passa de um sinistro “video game”…
Março.2005
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Sobre a importância das pessoas…

As únicas pessoas importantes que eu reconheço são as pessoas que me importam. As outras são-me completamente indiferentes. Já vivi o suficiente para saber que a maior parte das pessoas que passam por importantes são tão vulgares e comuns como eu. Muitas até (perdoai-me a imodéstia) serão menos interessantes.
Quando eu era criança, julgava que as “pessoas importantes” tinham um halo qualquer sobre a cabeça e eram mais inteligentes, mais virtuosas e mais cultas do que as demais. Depois fui descobrindo que não era assim e que as “pessoas importantes”, em geral, não tinham nada que as recomendasse à posteridade, a não ser o néon. A História está a abarrotar de “filhos da puta” (e que as “putas” me perdoem) que se julgaram ou foram julgados…importantes.
A minha vontade, hoje, de conhecer “pessoas importantes” é nula. Não lhes abriria a porta de minha casa, nem beberia um whisky com elas. Imaginai a lista dos indesejados…
Fevereiro.2005
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Elogio da saudade…

Acho que só há uma maneira de perceber a falta que certas pessoas nos fazem: estarmos longe delas e interrogarmos em nós o sentido da sua ausência. O hábito é corrosivo da saudade e sem saudade…as pessoas morrem.
O cancro da maior parte das relações é o hábito, que estiola a fantasia e torna irrelevante ou dispensável a necessidade do outro. As relações precisam de férias, como o corpo e a alma. Por isso é que eu digo que não há como o distanciamento físico para percebermos como os outros são ou não importantes para nós.
As pessoas que se pesam demasiado umas às outras não têm futuro entre si. O excesso de peso mata…
Fevereiro.2005
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O direito de morrer…

A vida é um valor sagrado – ouvi dizer há pouco numa reportagem (aliás, excelente) sobre a eutanásia, que passou no jornal da noite da SIC.
O adjectivo é, obviamente, uma armadilha: “sagrado”, no contexto da proposição, remete para uma alteridade qualquer, sabemos qual. A vida não pertenceria ao próprio, mas a outrem, o grande criador. E não pertencendo ao próprio, ninguém, nem o próprio, poderia dispor dela. Eis o argumentário de base de quem se opõe ao reconhecimento legal do direito à eutanásia e ao suicídio assistido (argumentário, porém, que não impede a maior parte dos estados americanos de continuar a aplicar, suponho que em nome de deus, a pena de morte).
Eu contraponho: a vida é um direito individual absoluto. Só o próprio pode dispor dela. Ponto final, parágrafo.
O mais é uma questão procedimental. Importante, certamente, porque a fronteira entre o homicídio e a eutanásia não pode ser equívoca. Mas os meios não diminuem, nem afectam os princípios. E o princípio é o direito de cada um a dispor da sua vida, que compreende o direito de pedir e obter ajuda para morrer.
26.02.2005
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“Ombra mai fu”…

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Frondi tenere e belle
del mio platano amato,
per voi risplenda il fato.
Tuoni, lampi, e procelle
non v’oltraggino mai la cara pace,
né giunga a profanarvi
austro rapace.
Ombra mai fu
di vegetabile
cara ed amabile
soave piú.
Quando, há já muitos anos, me comovi pela primeira vez (como ainda hoje continuo a comover-me) com “Ombra mai fu”, a celebérrima ária de Xerxes, de Haendel, o meu fraco conhecimento do italiano levou-me a pensar que estaria a ouvir uma pungente declaração de amor a alguém distante ou perdido. Só mais tarde vim a perceber que se tratava de um hino a um plátano e que, todavia, a minha primeira impressão não estava errada… A solidez, a resistência, a altivez e a delicada beleza dos plátanos são, metaforicamente, convites ao entendimento do amor e à expressão da saudade…
Toda a minha vida, desde a infância, está, quase umbilicalmente, ligada a um plátano. Quando os meus olhos se cruzam com ele, quando, ainda hoje, procuro a protecção da sua sombra, sinto que pelo seu tronco, pelos seus braços, pelas suas folhas, cresce em direcção à luz a memória mais antiga que me aproxima da eternidade. Ele vigiou e protegeu todos aqueles que deram e dão ainda um sentido à minha existência: os meus avós maternos, os meus pais, os meus filhos, a minha irmã, os meus tios, os meus primos, as mulheres que mais preservaram na ilusão de me resgatar da solidão primitiva.
É um plátano único, que há-de sobreviver fisicamente a todos aqueles que acolheu e que ainda hoje, tantas vezes, distraidamente, o namoram com o olhar ou até com as lágrimas.
Se eu pudesse escolher, livremente, o lugar da minha sepultura, era debaixo dele, na Aveleda, que eu gostaria que me enterrassem. Ombra mai fu…
Fevereiro.2005
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Deus (com dedicatória à própria)…

Mesmo para aqueles que acreditam num deus qualquer (não importa em que versão), deus é o grande ausente. Ele não está em lado algum, senão no íntimo mais íntimo de todos os crentes. É uma ideia, um conceito, uma emoção – que organiza e dá sentido à vida dos que acreditam, ao ponto, frequentemente, de os levar a matar e a morrer. Este deus do sangue, da vingança, do ajuste de contas é um deus celerado que projecta o pior da espécie humana. Mas há os deuses que inspiram a grande poesia, a grande música, a grande pintura, a arte que resistirá sempre à degradação dos tempos e dos costumes. Se eu acreditasse num deus qualquer, só seria capaz de acreditar num desses deuses. Quando ouço o Requiem, de Fauré, chego a ter pena de não acreditar. Deus também pode projector o melhor que há em nós. E algumas das melhores pessoas que eu conheço são crentes. É-o, por exemplo, a mulher que mais intensamente e mais desinteressadamente me ama. Sem que eu jamais tivesse podido corresponder-lhe. Ou tido, sequer, a oportunidade de lhe agradecer esse amor. Porque o amor agradece-se.

Embaraço antigo…

Chega uma amiga e diz: Tenho lido o teu blogue.
E conta-me de outros amigos (comuns ou não) que têm, diz ela, o mesmo hábito de ler-me.
Fico embaraçado. Escrevo sempre na convicção de que ninguém me lê.
De resto, ele há tantos blogues…por que haveriam logo de espreitar este?
Há exercícios de higiene íntima que não se recomendam ao voyeurismo…
Preferia-me solitário, no terminal do aeroporto de mim mesmo…
22.09.2004
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