Nascido também a 9 de Dezembro…

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Expresso-Única, 07.05.2008
Há poucos actores com quem eu gostaria de privar. John Malkovich é um deles. Por todas as personagens que já representou e pelos filmes que fez. E por ter também, como eu (e, já agora, como a Ana Saraiva, que habita poeticamente este blogue) nascido a 9 de Dezembro, ainda que um ano depois…

O António Marinho, a Faculdade de Direito de Coimbra, os fascistas arrependidos de toga e de beca e o mais que ambos sabemos…

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Expresso, 07.06.2008
Estas declarações do António Marinho sobre Júdice e os juízes dos tribunais plenários fizeram-me recuar na memória 33 anos. Em 1974/1975, a Faculdade de Direito de Coimbra (que ainda frequentávamos) teve que se confrontar, politicamente, com o espelho. E, como outras, acabou por entregar aos alunos a responsabilidade da higiene, naquela altura, também designada por… saneamento. O grosso do trabalho, confesso, foi feito por mim e ainda hoje guardo, religiosamente, cópias de toda a documentação reunida (que nunca usei, depois, para quaisquer outros fins e que, aliás, não consulto desde essa época). Foi uma tarefa delicadíssima, que procurei levar a cabo com o máximo de honestidade política, institucional e pessoal. E orgulho-me de, em condições que não favoreciam a racionalidade, ter conseguido poupar à humilhação do saneamento professores e colegas suspeitos de comprometimento com o fascismo que o rebanho, selvaticamente, pretendia defenestrar. Notem os mais desatentos ou menos informados que fora da Faculdade de Direito de Coimbra que saíra Salazar, para governar o país durante quase 40 anos…
A maior parte da documentação reunida para efeitos de saneamento provinha da Comissão de Extinção da PIDE/DGS. Por ela fiquei a saber, por exemplo, que professores e alunos da Faculdade tinham sido… informadores ou colaboradores da polícia política. Apesar de não consultar a documentação há mais de 30 anos, lembro-me ainda de muitos nomes. O nojo e a ética impediram-me até hoje de os revelar. Alguns ainda estão vivos e têm nome na praça. Para mim, porém, não passam de escória social: gente muito pequena que, para singrar na carreira e na vida, não hesitava em denunciar o amigo, o colega ou o aluno, atirando-o às feras (e, muitas vezes, para a prisão). O António Marinho, apesar de não ter feito parte da comissão de saneamento, sabe muito bem a que crápulas me refiro, até porque também foi vítima deles.
Digo isto para que se entenda por que tenho tão pouco respeito por alguma gente que ainda vai por aí, na vida política e fora dela, arrotando importância e estatuto. E para que se entenda também por que, apesar de algumas divergências, continuo a ser amigo do Marinho. Há quase quarenta anos que partilhamos o mesmo destino… e que continuamos, orgulhosamente, a dar a cara pelos mesmos ideais…
Ninguém nos comprou, ninguém nos calará…

Um jargão meritíssimo…

Desde os tempos em que, abençoadamente, deixei de frequentar os tribunais que não ouvia a expressão “meritíssimo juiz”. Voltei a ouvi-la há pouco, num jornal televisivo, da boca de um causídico, a propósito não sei de que processo ou julgamento. Levantei os olhos do jornal que, distraidamente, folheava e comecei a pensar no país, neste país de estátuas de sal chamado Portugal. Há muitos anos também eu dizia, por imperativo profissional, “meritíssimo juiz”. E corava de vergonha, sentindo-me o mais pateta dos serventuários da justiça. Extraordinário, como, em certas áreas, tão pouco muda em Portugal. Passam os anos, passam as décadas, passam os séculos… e os portugueses continuam, impavidamente, a papaguear “merítissimo juiz”, “excelentíssimo senhor”, “sua excelência reverendíssima”, “senhor doutor”, etc e tal…
A linguagem da subserviência e da hipocrisia é, seguramente, um dos traços distintivos da arte de ser português…

Ecos da morte de Eduardo Melo… (6)

Devo ser um dos raros bracarenses que, em público, teve a ousadia de recomendar a Eduardo Melo que se calasse. A Melo e ao então arcebispo de Braga, Eurico Nogueira. Digo isto, apenas, para que se perceba que não esperei pela morte da criatura para dizer o que pensava dele. Ele sabia muito bem, aliás, o que eu pensava. E o que eu sabia…
Não contarei, porém, tudo o que sei (e nunca disse), porque ele já cá não estará para se defender.
Eduardo Melo deixou, para mim, de existir. Ponto final.
Sei que alguns irão tentar fazer dele um herói e um santo. Rirei apenas. E ironizarei, sempre que necessário. Nada mais…

Improviso sobre um auto-retrato…

Já fui todas as palavras
que não ousaste dizer
as mãos algemadas
numa culpa antiga de gestos
uma quase impotência
finjo que não vejo
o fogo da distância tão próxima
o fogo e o vento gelado
e subo a todas as montanhas
para uivar com os lobos
não lamento nada
escrevo apenas
para que te ouças.

Ademar
19.12.2007


Que dizem as imagens do que fomos? Que diz esta imagem do que fui? Não importa quando. A memória que retemos das pessoas começa sempre por fixar imagens. Depois, talvez, palavras. Por fim, as vozes. E, porém, são as vozes que prolongam por mais tempo a nossa identidade. Não há duas vozes iguais. Talvez, por isso, a música resista melhor do que a poesia à erosão do próprio tempo. A eternidade dos sons pode sempre muito mais do que a eternidade das palavras. As imagens, essas, estão sempre a mudar. Nós é que, frequentemente, não reparamos. Continuo a falar para ser ouvido. E, se possível, vivido…

Adela González-Campa…

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Os melómanos habituam-se, ao longo dos anos, a ver os nomes nas capas e nas bulas dos discos, perdão, dos cd’s (ofereço a orelha ao correctivo dos puristas). Adela González-Campa é um nome que, até ontem, habitava o inconsciente da minha memória de melómano. Já tinha passado por ele, mas não o tinha fixado. Ontem, no concerto de Jordi Savall na Póvoa de Varzim, reconheci finalmente a figura. Afinal, há mesmo uma mulher, tocadora de castanholas, que dá pelo nome de Adela González-Campa e que integra uma das formações do Hespèrion XXI…
Há muitas formas de “ouver” um concerto de Música dita Antiga (os “antigos”, mesmo na versão dos “modernos”, estavam muito mais próximos dos deuses do que nós). Eu inclino-me aos pormenores. Ontem, fixei os sentidos na tocadora de castanholas, distantemente postada numa espécie de altar, erguido atrás de todos os instrumentistas e de todos os cantores. Mas era ela, discretamente, que marcava (reproduzo aqui o que li algures) a pulsação vital das peças que punham os ouvintes, mentalmente, a dançar.
Foi, para mim, um espanto. Como as castanholas, que me habituei a associar ao fandango, podem alinhavar o ritmo das violas da gamba, da harpa, da guitarra, do cravo, das vozes, das demais percussões, concorrendo na feérica tapeçaria dos sons…
O volume não faz a história. Frequentemente, é o mínimo que encaminha o destino. Devo a lição a Adela González-Campa. Onde quer que esteja, alguém que lhe diga que fiquei servo das suas castanholas…

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