A Joaninha que voltou, para mim, a voar…

Ando a comprar poucos livros. O universo é finito e quase tudo já foi escrito. Compro ainda poesia e alguma história. O mais aborrece-me. Começo mesmo a entrar no ciclo de ir oferecendo simplesmente muitos dos livros que, desde a adolescência, fui, inutilmente, acumulando. De vez em quando, empresto um ou outro aos meus alunos, na esperança de que leiam e na expectativa (inconfessável) de que não devolvam. A minha casa é um dormitório de literatura: já não cabe na cama mais ninguém…
De vez em quando, porém, não resisto a comprar ainda mais um livro. Como este.

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Tive a sorte de ser educado até aos onze anos (idade que eu tinha quando ela se casou) por uma prima mais velha, que os meus pais tinham adoptado como filha precoce ou irmã mais nova (nunca cheguei a perceber). Como ambos já morreram, posso agora escrever isto, sem temer magoá-los. Era a Bela e não a minha mãe que me contava estórias. Era a Bela e não a minha mãe que me fazia festinhas e me abraçava. Era a Bela e não a minha mãe que me protegia dos pesadelos, diurnos e nocturnos. Era a Bela e não a minha mãe que aconchegava a minha cabeça ao travesseiro da cama e me dava um beijo para adormecer. Era a Bela e não a minha mãe que cantava e ria para mim. A Bela foi, afectivamente, a mãe que eu não cheguei a ter…

A Bela sabia muitas lengalengas que partilhava, quase em segredo, comigo. Uma delas, que nunca mais esqueci, era esta:

Joaninha voa voa
Que o teu pai está em Lisboa
A tua mãe no Moinho
A comer pão com toucinho
Joaninha voa voa
Que o teu pai está em Lisboa
Com um rabinho de sardinha
Para comer, que mais não tinha

Uma lengalenga não se entende: ouve-se e repete-se, como numa espécie de ritual mágico. Há jogos de palavras que não são para entender, mas para jogar, simplesmente. E eu jogava: aprendi com a Bela a jogar com as palavras. E voava com a Joaninha para Lisboa, sem saber que Lisboa não existia…
Eis por que o título deste livro de Ana Cristina Leonardo, jornalista do Expresso, me cativou tanto. A Joaninha da minha infância também não queria ser gente e, muito menos, voar em direcção ao pai que estava em Lisboa. Fiz com a Joaninha do livro o percurso inverso…

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Um rasgão na capa de um romance delicado…

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Foi o primeiro romance que li de Marguerite Duras. Há muito que não sabia do paradeiro do livro. Descobri-o hoje, ocasionalmente, escondido entre outros livros de maior porte. Folheei-o lentamente, como um romance tão delicado merece ser folheado. Naquele tempo, escreve Marguerite algures, as pessoas tinham tempo. E mesmo nas cidades pequenas acontecia sempre qualquer coisa. Agora, não. Agora o tempo parece voar, entre nada e coisa nenhuma. Como se a vida tivesse entretanto adquirido dimensões que anteriormente desconhecia. Ilusões de óptica…

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Capas (deliciosas) de dois livros de Santos Fernando, um autor hoje quase completamente esquecido no país em que nasceu e que tão mal o tratou. Os Cotovelos de Vénus (1963) e Tempo de Roubar (1964) mereciam ser reeditados. Fica aqui a sugestão…

Livros (corrigenda)…

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Afinal, estava enganado… Este Tratado deve ser o livro mais antigo, digo, mais idoso, da minha caótica biblioteca. É de 1686… Mas confesso que não me excita tanto como “A Religiosa em Solidão”…

Livros…

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Não sendo propriamente um bibliófilo, nem um coleccionador de raridades bibliográficas, adoro livros com pátina (geralmente escreve-se “patine”, à francesa). Este, “A Religiosa em Solidão”, editado em 1746, será provavelmente o livro mais antigo da minha biblioteca. Já não sei quanto paguei por ele, mas livros destes não têm preço. Acresce que “A Religiosa em Solidão” é, no género, uma obra prima. Poucas leituras me têm divertido tanto…