O Público faz hoje vinte anos…

Há vinte anos que leio o Público diariamente. Mesmo no estrangeiro, nunca deixei de comprar o jornal… e, regressado à terrinha, era no Público que me punha a par do que, entretanto, acontecera no país e no mundo. Os principais jornalistas do núcleo fundador do projecto do Público (Vicente Jorge Silva, Nuno Pacheco, José Manuel Fernandes, Joaquim Fidalgo, José Queirós, para só referir alguns) tinham sido meus colegas no Expresso. Perceber-se-á, por isso, a atenção com que sempre acompanhei o percurso do jornal e que, no Público, tenha encontrado guarida para a publicação de alguns artigos (como, actualmente, acontece com a minha irmã). Folheando os meus arquivos, descobri o primeiro artigo que publiquei no jornal, em Janeiro de 1992. Recupero o título e um excerto. E assim me associo hoje à comemoração do vigésimo aniversário do Público…

pub0503a.jpg
(…)
pub0503a22.jpg
(…)
Público, 08.01.1992

Subscrevo, na íntegra, estas duas observações de Vital Moreira…

Centenário da República (1)

Na cerimonia inaugural de ontem no Porto, foi incluída entre os discursos oficiais uma oração por um capelão das Forças Armadas. Tendo em conta que uma das grandes conquistas da República foi separação entre o Estado e a religião, o mínimo que se pode dizer é que se tratou de uma iniciativa despropositada e de mau gosto.

Centenário da República (2)

Na mesma cerimónia inaugural as entidades oficiais que iam chegando eram publicamente anunciadas pelas suas qualificações académicas (“dr.”, “prof. doutor”, etc.).

Revertendo ao espírito original da igualdade republicana, por que não aproveitar o Centenário para abolir de novo e definitivamente tais formas de tratamento do discurso e dos documentos oficiais?

Um poema de Miquel Martí i Pol (1929-2003), legendado em galego…

pun0202.jpg
Miquel Martí i Pol, Vint-i-set poemes en tres temps

Se cadra seriamos menos túzaros
se non nos soubésemos confinados nun
cuarto pequeno, escaso de fiestras,
con mobles vellos e po e papelada;
se a cada paso que damos non se erguesen ecos
de presenzas escuras e sinistras,
se puidésemos berrar sen medo nin vergoña.
Se cadra aprenderiamos a sorrir
e non nos fariamos tanto mal nas uñas
a rabuñar paredes, mentres eles, alá fóra
axitan axóuxeres, lanzan proclamas,
manteñen a orde, tocan o carallo.

Versão para galego de Maria Alonso Seisdedos

Espero que seja a última geração do corta e cola…

cop3101a.jpg
cop3101b.jpg
cop3101c.jpg
(…)
cop3101d.jpg
cop3101e.jpg
cop3101f.jpg cop3101f1.jpg
Notícias Magazine. 31.01.2010

Um ensino ainda predominantemente dirigido à memorização e reprodução de informação a esmo, que, frequentemente, os alunos nunca chegam verdadeiramente a compreender e a integrar, favorece tudo isto e tudo o mais. A escola que hoje servimos às crianças, aos adolescentes e aos jovens (do básico à universidade) é uma escola minimalista e profundamente deformadora. E o “eduquês” não é para aqui chamado…

Post-scriptum
O Armando Malheiro, que coordenou este estudo, é um velho amigo e companheiro de muitas lutas. Folgo saber, meu caro, que continuamos a partilhar o mesmo lado da barricada!…

A honra (e a vaidade) de ter sido professor destes “miúdos”…

bou2701.jpg

Foram meus alunos há vinte e tal anos. Trabalham hoje na mesma instituição. E fizeram-se fotografar todos juntos para que eu os visse, como são hoje. Da esquerda para a direita, o Alvim, o Isaac, a Glória, a Gigi.

Ao mesmo tempo que a fotografia, que me foi remetida pela Glória, recebi uma mensagem da Gigi. Sempre foi a mais atrevida, a mais “espevitada” de todos. Ao lê-la, percebi uma vez mais que um professor não se projecta apenas naquilo que diz, mas muito mais naquilo que é, que diz de si próprio…

Olá “sedutor”, tudo bem? Desculpe tratá-lo assim, mas não sei se se lembra que nós chamavamos-lhe “stor” e não gostava e um dia disse: “Não gosto que me tratem por “Stor”, ao menos tratem-me por “sedutor”. Lembra-se? E então, a sua vida corre bem? Eu trabalho na mesma Secção que a Glória. nós falamos muito em si, a relembrar os tempos de escola. Foram bons tempos, apesar da imaturidade. Eu era uma aluna um bocado “espevitada”, mas era só consigo, por causa da confiança. Sabe que o “stor” deixava-nos à vontade, não era daqueles professores rígidos que só queriam cumprir o programa. Mas foi um professor importante para nós, porque hoje, passados tantos anos, nós conseguimos lembrá-lo de uma forma diferente dos outros, como um amigo.

Obrigado, Gigi!

Uma fotografia, ainda, da Teresa Tibo…

tibo2501.jpg

escrevi aqui sobre a Teresa Tibo (à direita, na fotografia, pouco antes de morrer). Não vou repetir-me. Nem vou contar, seria um sacrilégio, os segredos que ela, um dia, então minha aluna, quis partilhar comigo. Desde esse dia, ficámos amigos. Tanto, que ela decidiu poupar-me ao sofrimento da sua doença e da sua morte. A vida pode ser profundamente injusta para muitas pessoas. Mas nunca foi tanto como para a Teresa. Ela não merecia: jamais conheci uma pessoa tão corajosa e tão extraordinariamente humana como ela. Apenas agradeço à Glória Nunes, outra ex-aluna, que me tenha feito chegar esta fotografia. Espero que ela me perdoe que a publique sem prévia autorização…