Um verdadeiro Mestre (com maiúscula)…

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Notícias Magazine, 30.12.2007
Há poucas pessoas, em Portugal, a pensarem bem os problemas da educação e do ensino. António Nóvoa* é uma delas. Tudo o que ele diz e escreve reflecte inteligência, estudo, sensibilidade e conhecimento. Distintamente dos gabirus que tanto gostam de arrotar postas de pescada sobre o que não entendem, Nóvoa convida sempre, serenamente, à reflexão e não ao panfletarismo de ocasião. E foi preciso que chegasse a reitor da Universidade de Lisboa para que, finalmente, o país “iletrado” começasse a lê-lo e a ouvi-lo. Espero que aproveite alguma coisa…
* Declaração de interesses: conheço o António Nóvoa desde a juventude e somos amigos. Penso que ainda não é crime…

Henrique Barreto Nunes…

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Correio do Minho, 31.03.2005

Se eu tivesse de apontar o português mais ilustre que conheço (e tenho a sorte de conhecer muitos), apontaria, sem a mínima hesitação, o Henrique Barreto Nunes. Somos amigos há quase 30 anos e nunca deixei de o admirar. Tanto, que emprestei o seu nome ao meu filho mais novo.

O Henrique, para quem não saiba, é bibliotecário, talvez o mais respeitado e influente bibliotecário deste pais. Escrevo-o sem recear que alguém, do meio, me desminta. A partir da Biblioteca Pública de Braga, que na prática dirige há mais de duas décadas, o Henrique tornou-se uma referência de sabedoria, de integridade, de coragem, de denodo. É um verdadeiro personagem da Renascença: bibliotecário, historiador, arqueólogo, escritor, académico, pedagogo, activista cultural, militante apaixonado de todas as causas cívicas que nos distinguem e elevam do lixo humano. Não há, infelizmente, muitos portugueses como ele e, mau grado todos os seus méritos, tão discreto, tão generoso e, tão naturalmente, avesso a homenagens.

Estes elogios, normalmente, em Portugal, escrevem-se quando as pessoas morrem. O Henrique está vivo e bem vivo e continua diariamente a disseminar à sua volta a paixão pelos livros e pelos autores que valem a pena.

Ontem, o meu filho Henrique, pela primeira vez, perguntou-me por que lhe coloquei o nome que ostenta. Ele sabia a resposta, mas eu emocionei-me a responder-lhe.

Desculpa, Henrique, este texto!

Deus (com dedicatória à própria)…

Mesmo para aqueles que acreditam num deus qualquer (não importa em que versão), deus é o grande ausente. Ele não está em lado algum, senão no íntimo mais íntimo de todos os crentes. É uma ideia, um conceito, uma emoção – que organiza e dá sentido à vida dos que acreditam, ao ponto, frequentemente, de os levar a matar e a morrer. Este deus do sangue, da vingança, do ajuste de contas é um deus celerado que projecta o pior da espécie humana. Mas há os deuses que inspiram a grande poesia, a grande música, a grande pintura, a arte que resistirá sempre à degradação dos tempos e dos costumes. Se eu acreditasse num deus qualquer, só seria capaz de acreditar num desses deuses. Quando ouço o Requiem, de Fauré, chego a ter pena de não acreditar. Deus também pode projector o melhor que há em nós. E algumas das melhores pessoas que eu conheço são crentes. É-o, por exemplo, a mulher que mais intensamente e mais desinteressadamente me ama. Sem que eu jamais tivesse podido corresponder-lhe. Ou tido, sequer, a oportunidade de lhe agradecer esse amor. Porque o amor agradece-se.