A minha memória mais intensa do dia 25 de Abril de 1974…

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Se for vivo, suponho que sim, terá oitenta anos (nasceu em Novembro de 1929). Dá pelo nome de António Castanheira Neves e fez carreira como professor da Faculdade de Direito de Coimbra, onde, como aluno, o conheci, no dealbar dos anos setenta do século passado. Foi o professor mais incompetente que tive na Faculdade: não conseguia comunicar, nem se fazia entender. Os alunos saíam das aulas a perguntar uns para os outros: o que é que ele disse? E riam. O homem era completamente destituído de competências comunicacionais, mas fez toda uma brilhante carreira universitária a escrever e a publicar para os mortos, que os vivos não faziam parte do seu mundo. Castanheira Neves era um produto refinadíssimo do conúbio entre um certo salazarismo envergonhado (fora, de resto, procurador à Câmara Corporativa) e a igreja católica, que representou em diversas instâncias. Não lhe quero mal: tenho pena dele, acho que era, como professor e como ser humano, um tipo profundamente infeliz, que só disseminava à sua volta a infelicidade. Nada aprendi com ele, a não ser a distrair o tédio…

No dia 25 de Abril de 1974, quando chegou à Faculdade para dar aulas (como se nada tivesse, entretanto, acontecido no país), Castanheira Neves só não foi agredido (e, porventura, barbaramente agredido) porque um grupo de ex-alunos, entre os quais eu me encontrava, o defendeu e o escoltou. Todos ali o odiávamos ou detestávamos, mas… o bom senso triunfou. Ele era tão medíocre e tão grotesco que não merecia que o transformássemos em mártir da revolução. E nada de grave ou irreparável lhe aconteceu. Ouviu uns insultos, mas ninguém lhe tocou. E jamais me esqueci ou esquecerei do pânico que vi nos seus olhos quando os alunos o rodearam e começaram a invectivá-lo. O pobre homem deve ter pensado que dali já não saía vivo. Mas saiu… e sem um arranhão. Pelo menos, na pele. Só não sei se algum dia recuperou do susto do 25 de Abril…

One Response to “A minha memória mais intensa do dia 25 de Abril de 1974…”

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  1. Lena Berardo says:

    Enquanto isso eu estava à janela do meu quarto, logo no início da rua Lourenço de Almeida Azevedo, por cima de uma tabacaria (Tabacaria Sereia) aparvalhada de todo a ver tanta gente a dirigir-se para a Praça da República a cantar as músicas que sempre me ensinaram e uqe sempre me disseram que eram proibidas. Tinha 9 anos e recordo como se fosse ontem, a alegria nos rostos. :)

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