Improviso à sombra de uma figueira…

As orelhas dialogam sempre
mais depressa com as mãos
e mais intimamente
e quando os pés imploram
o sustento do chão
até o silêncio parece sulcar
ainda mais profundamente
a memória do corpo que se interroga
afinal
talvez haja ainda mais terra
depois daquela em que nos perdemos.

Ademar
31.10.2008

Polícias municipais que montam em três braços…

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A partir de ontem, a Polícia Socialista, perdão, Municipal de Braga já dispõe de 4 segways, as vassouras voadoras que se vêem na foto. São unissexo e não pesam mais do que 50 quilos. O Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal de Braga esclarece:
Para que a ?segway? avance, o indivíduo só precisa de se inclinar para a frente e para que recue é necessária a inclinação para trás. Para virar, basta oscilar o braço central para o lado pretendido. É eléctrica e utiliza duas baterias Li-ion, que lhe permitem uma autonomia de cerca de 38 quilómetros e uma velocidade máxima de 20 km/h. A carga total é de oito a 10 horas e representa apenas um ?kilowatt?.
Eu acrescento à informação oficial, polissémica, uma nota complementar, simplesmente irónica: os polícias municipais de Braga que vão montar os segways têm todos três braços. E, pelo método da oscilação, usarão o braço central para virar à esquerda ou à direita. Quando se inclinam para a frente ou para trás (pode ser pela força do álcool), a vassoura electrónica avança ou recua. Os marginais já começaram a fugir do centro da cidade. E os outros, também…

Isto é… qualidade!…

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Revista da Qualidade, Outubro.08
Se o Público, de vez em quando, não a distribuísse gratuitamente, eu não saberia da existência desta excelentíssima revista que, pelos vistos, é comercializada ao preço de capa de 4,75 euros. Deverei presumir, por isso, que alguém a compra, quando o Público, misericordiosamente, não a oferece como brinde. É, para mim, um mistério insondável, porque esta revista parece o boletim das costureirinhas da Gafanha da Nazaré e não se recomenda pela excelência, nem pela inovação, nem pela competitividade. A edição distribuída hoje, que traz na capa (não se percebe a que título) Isaltino Morais, insere uma entrevista deliciosa com o inevitável Moita Flores, que começa assim (reparai na excelência da pergunta):
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Ao ver isto, senti-me ridicularizado como português!…

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Público, 31.10.2008
Sócrates, numa cimeira ibero-americana, a promover um computador da Intel, “franchizado” por uma empresa portuguesa. Ainda o veremos a comercializar preservativos tailandeses made in Alhos Vedros? Há muito tempo que não me sentia, como português, tão envergonhado…

Valter Lemos já foi demitido?… (241)

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Público, 01.03.2008
Alguns leitores têm-me perguntado por que insisto, por que continuo, dia após dia, a exigir a demissão de Valter Lemos. Respondo: porque tenho memória e não admito canalhices políticas…
Durante cerca de seis anos, Ana Benavente foi, em nome do PS e com diferentes ministros (incluindo Augusto Santos Silva), Secretária de Estado da Educação. Para o mal e para o bem, foi uma das principais responsáveis pela política educativa do PS. António Guterres era o primeiro-ministro e Sócrates, membro do governo. Eu espero sempre que os partidos políticos, pelo menos, sejam capazes de assumir a coerência e a bondade das políticas que, no governo, desenvolvem. Durante seis anos, eu executei no terreno a política educativa do governo socialista, julgando que o PS, pelo menos, se reconhecia nela…
Valter Lemos, secretário de estado da educação de um governo ainda socialista, agora dirigido por Sócrates, considera que a política educativa de António Guterres produziu “os piores resultados escolares da Europa”. A crítica atinge em cheio a honra não apenas do PS, mas do actual primeiro-ministro e do ministro dos assuntos parlamentares. É, politicamente, uma deslealdade inqualificável e uma grosseria que ofende todos aqueles que, nas escolas, têm dado a cara pelas políticas educativas dos sucessivos governos…
Num país a sério, dirigido por gente com carácter e coluna vertebral, Valter Lemos afastar-se-ia imediatamente do governo ou seria afastado. Não sucedeu uma coisa, nem outra e Valter Lemos continua a exercer, tranquilamente, as suas funções, como se não pudesse ser responsabilizado pelos seus actos, ou seja, como se fosse inimputável. Só faltava mesmo sermos governados por inimputáveis!…
Eu recuso-me a aceitar este desgraçado estado de coisas e, por isso, continuarei a perguntar, todos os dias, se Valter Lemos já foi demitido. Eu não sou cúmplice…

Ora pro nobis…

glória a ti nas alturas
hoje, perdi os óculos
tenho os sapatos rotos
e a chuva está imparável
vós, que sois muito alto
(fostes algum dia poeta?)
vedes alguma melhoria para amanhã?
é que sinto um desamparo
é difícil de explicar
sem me rir
e depois, é difícil não chorar
e sem óculos é tudo mais difícil
nem sei bem quando os perdi
não respondes, bem sei que
se amanhã fizesse sol
ainda assim teria frio
por hoje, fico aqui sentado
muito devagar
espero não ter feito confusão
ouves-me? ainda é hoje?
não me deixes
Ana Saraiva