Improviso para ventilador…

Morri hoje
mas ainda tenho que escrever este poema
antes que venham buscar o meu corpo
para a reciclagem
não sei se ainda tenho crédito de palavras
e temo mesmo que a password
neste momento
já esteja desactivada
mas arrisco
nem na morte me pesou a vida
digo-te que é apenas uma vertigem
nada que o amor entenda
ou o desamor
uma última miragem
o barco que finalmente sai da linha do horizonte
e parece naufragar
e foram necessárias tantas mortes
para chegar a esta
em que só tu me esperavas
não levantes já o meu corpo peço-te
deixa-me ainda acabar de morrer neste cigarro.

Ademar
31.08.2008

A…gosto…

é provável que tenhas acertado o tempo
por outras mãos
tementes porque vivas
eu pego nas tuas como posso
e naquelas outras que de ti falaram
a tua trança foi todo o meu corpo
e nele o lembrar-me de ti sem o dizer
não terias aprovado
nada disto seria aprovado
mas não há lei nem cânone nem gente que saiba
porque encerro Agosto no dia em que nasceste
Ana Saraiva

Valter Lemos e o Inferno, segundo João Pereira Coutinho…

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Expresso-Única, 30.08.2008
Nasceu em 1976 e é, notoriamente, um rapaz muito esperto, muito lido, muito esperto. Com 22 anos, já colunava em “O Independente”, de Paulo Portas. Já então demonstrava semanalmente que era um rapaz (ainda mais rapaz) muito esperto, muito lido, muito esperto. Ah! e escreve bem. E vai directo aos assuntos: não sofre de bulimia retórica. O que só prova a sua esperteza (mediática). É colega de João Carlos Espada, na Universidade Católica e no Expresso. Até podia (pelos trejeitos) ser filho dele, mas não é. Já perguntei a Deus e Ele esclareceu-me: pelo que cumpre à natureza, João Pereira não provém de João Carlos. Na obra da criação, nem tudo pode ser perfeito…
Coutinho também não gosta de Valter Lemos e até o recomenda ao Inferno. Direis: ora aí tem uma alma gémea da sua! Lamento desiludir-vos: não tenho. Valter Lemos, para mim, é exactamente aquilo que é: Valter Lemos. Não lhe concedo mais importância do que essa. Para Coutinho, Valter Lemos é uma espécie de antonomásia: simboliza as mais execráveis propriedades da escola pública portuguesa, a tal (oh horror!) que procura integrar em vez de excluir.
Coutinho acha que a escola é para quem a merece. E que a plebe deve ser corrida a pontapé da escola, quando não é capaz de se elevar aos cumes da distinção social. O pensamento é velho de séculos. Mas como Coutinho é um rapaz muito esperto, muito lido, muito esperto e escreve com leveza… o pensamento até consegue parecer modernaço. Luís não tem lugar na escola de Coutinho. Luís está destinado ou predestinado ao Inferno. Não percamos tempo: fogo com ele!…

Valter Lemos já foi demitido?… (180)

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Público, 01.03.2008
Alguns leitores têm-me perguntado por que insisto, por que continuo, dia após dia, a exigir a demissão de Valter Lemos. Respondo: porque tenho memória e não admito canalhices políticas…
Durante cerca de seis anos, Ana Benavente foi, em nome do PS e com diferentes ministros (incluindo Augusto Santos Silva), Secretária de Estado da Educação. Para o mal e para o bem, foi uma das principais responsáveis pela política educativa do PS. António Guterres era o primeiro-ministro e Sócrates, membro do governo. Eu espero sempre que os partidos políticos, pelo menos, sejam capazes de assumir a coerência e a bondade das políticas que, no governo, desenvolvem. Durante seis anos, eu executei no terreno a política educativa do governo socialista, julgando que o PS, pelo menos, se reconhecia nela…
Valter Lemos, secretário de estado da educação de um governo ainda socialista, agora dirigido por Sócrates, considera que a política educativa de António Guterres produziu “os piores resultados escolares da Europa”. A crítica atinge em cheio a honra não apenas do PS, mas do actual primeiro-ministro e do ministro dos assuntos parlamentares. É, politicamente, uma deslealdade inqualificável e uma grosseria que ofende todos aqueles que, nas escolas, têm dado a cara pelas políticas educativas dos sucessivos governos…
Num país a sério, dirigido por gente com carácter e coluna vertebral, Valter Lemos afastar-se-ia imediatamente do governo ou seria afastado. Não sucedeu uma coisa, nem outra e Valter Lemos continua a exercer, tranquilamente, as suas funções, como se não pudesse ser responsabilizado pelos seus actos, ou seja, como se fosse inimputável. Só faltava mesmo sermos governados por inimputáveis!…
Eu recuso-me a aceitar este desgraçado estado de coisas e, por isso, continuarei a perguntar, todos os dias, se Valter Lemos já foi demitido. Eu não sou cúmplice…