Improviso para distrair Marrakech…

Há um paraíso a que os anjos ainda não chegaram
algures na planície a caminho do Atlas
uma constelação de areias e fogos naturais
todos os cenários que fizeram Casablanca
já não há cidades sagradas nem balcões
que debrucem ingenuamente do teu olhar
e Dooley Wilson já não trabalha aqui
agora sou que me ocupo das teclas
e digo poemas em vez de cantar
estas são as mãos em que repousas
sirvo-me ainda delas.

Ademar
31.07.2008

António Lopes Ferreira: até sempre, Tio!…

toninho.jpg
A morte, mesmo quando há muito esperada, tem quase sempre, pelo menos, o efeito de fazer explodir a memória. Hoje, morreu o homem que mais terá marcado a minha formação: o meu Tio António. Raramente lhe ouvi uma reprimenda e muitas vezes lhe pedi ajuda ou ele ma deu, sem eu pedir. Provavelmente, ele ver-me-ia mais como filho (filhos que nunca quis ter) do que como sobrinho. Criança, adolescente e jovem, era com ele que eu me abria e era a ele que eu fazia as perguntas que não seria capaz de colocar a mais ninguém. E era comigo, também, que ele se abria, contando-me coisas que, provavelmente, a mais ninguém contaria. E eu ficava sempre, fascinado, a ouvi-lo. Foram milhares de almoços (que, muitas vezes, entravam pela tarde dentro), foram milhares de horas de conversa…
Acho que aprendi a conhecer o mundo e as pessoas através do olhar (frequentemente cínico) do meu Tio António. Empresário de fachada (como gostava de se dizer), ele era sobretudo um jogador (profissional) e, como jogador, uma personagem verdadeiramente deslumbrante, que me parecia sempre acabada de sair de uma narrativa de Dostoievski (autor, aliás, que ele conhecia bem). Durante décadas, o meu Tio António foi, talvez, um dos melhores jogadores de poker sintético do país e um dos mais conhecidos e respeitados, pela elegância, pela inteligência e pela argúcia com que jogava. Acompanhei a sua carreira, quase diariamente, durante muitos anos. Ele contava-me quase tudo, sabendo que, aquilo que me contava, ficaria sempre entre nós. Eu sabia com quem ele jogava: grandes empresários, “aristocratas” de meia tigela, filhos-família, “doutorzecos” (como ele, em geral, os qualificava), até padres e cónegos. Recordo-me bem de algumas “mesas” em que ele participou, mesas em que, numa noite, se perdiam e ganhavam pequenas fortunas. E ele partilhava comigo, regularmente, a sua contabilidade de ganhos e perdas. E, apesar de ser um ganhador (um grande ganhador), sempre me chamava a atenção para os riscos do jogo profissional, recomendando-me que jamais experimentasse ou me deixasse seduzir. E eu fiz-lhe a vontade…
Aliás, era curioso que ele raramente apostava nos casinos que, por razões sobretudo sociais, frequentava. E dizia sempre que, nos casinos, toda a gente está, estatisticamente, condenada a perder. Por isso, ele só jogava profissionalmente o poker e o rummy (ou rami), jogos de aposta em que sabia, claramente, ter vantagem sobre a concorrência. E no dia em que sentiu que, irreversivelmente, começava a perder faculdades (o Alzheimer declarava-se), decidiu, pura e simplesmente, “encostar”: “a partir de agora, vou jogar baratinho, só para entreter”…
Devo ao meu Tio António muitas outras descobertas. Humphrey Bogart, a quem ele roubara o chapéu e uma parte da figura e da pose. Clark Gable. Fred Astaire, que ele, adolescente, imitava (como lembrava, frequentemente, a minha mãe). Frank Sinatra. Bing Crosby. Marlene Dietrich…
Aprendi com ele a detestar o salazarismo e a igreja católica. E a desconfiar das multidões e dos rebanhos. Era um liberal e um individualista. E um céptico, muitas vezes, um cínico.
Não conheci ninguém mais perfeito do que ele. E mais imperfeito…
Obrigado, Tio, por ter existido!…

toninho2.jpg

Valter Lemos já foi demitido?… (149)

val20.jpg
val21.jpg
val22.jpg
val23.jpg
val25.jpg
val26.jpg
val27.jpg
val28.jpg
Público, 01.03.2008

Alguns leitores têm-me perguntado por que insisto, por que continuo, dia após dia, a exigir a demissão de Valter Lemos. Respondo: porque tenho memória e não admito canalhices políticas…

Durante cerca de seis anos, Ana Benavente foi, em nome do PS e com diferentes ministros (incluindo Augusto Santos Silva), Secretária de Estado da Educação. Para o mal e para o bem, foi uma das principais responsáveis pela política educativa do PS. António Guterres era o primeiro-ministro e Sócrates, membro do governo. Eu espero sempre que os partidos políticos, pelo menos, sejam capazes de assumir a coerência e a bondade das políticas que, no governo, desenvolvem. Durante seis anos, eu executei no terreno a política educativa do governo socialista, julgando que o PS, pelo menos, se reconhecia nela…

Valter Lemos, secretário de estado da educação de um governo ainda socialista, agora dirigido por Sócrates, considera que a política educativa de António Guterres produziu “os piores resultados escolares da Europa”. A crítica atinge em cheio a honra não apenas do PS, mas do actual primeiro-ministro e do ministro dos assuntos parlamentares. É, politicamente, uma deslealdade inqualificável e uma grosseria que ofende todos aqueles que, nas escolas, têm dado a cara pelas políticas educativas dos sucessivos governos…

Num país a sério, dirigido por gente com carácter e coluna vertebral, Valter Lemos afastar-se-ia imediatamente do governo ou seria afastado. Não sucedeu uma coisa, nem outra e Valter Lemos continua a exercer, tranquilamente, as suas funções, como se não pudesse ser responsabilizado pelos seus actos, ou seja, como se fosse inimputável. Só faltava mesmo sermos governados por inimputáveis!…

Eu recuso-me a aceitar este desgraçado estado de coisas e, por isso, continuarei a perguntar, todos os dias, se Valter Lemos já foi demitido. Eu não sou cúmplice…

Improviso na forma de reportagem…

Contaram-me que tudo se passou assim
no check-in
(não importa em que aeroporto)
perguntaram-te se viajavas só
ou acompanhada
num primeiro momento hesitaste
parecendo não entender a pergunta
depois abriste simplesmente a mão
e num lento sorriso levaste-a ao peito
indicando o sentido do coração
quem não entenderia o silêncio
nas tuas palavras?

Ademar
30.07.2008