Descrucifique-se a rã!…

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Esta escultura de Martin Kippenberger ofende os sentimentos católicos? Sem dúvida. Pelo menos, ofende os sentimentos, não sei se católicos, do bispo de Bolzano, Wilhelm Egger, e do governador de Bolzano, Luis Durnwalder. Martin Kippenberger, se fosse vivo, talvez contestasse, dizendo que sempre viveu atormentado pela cruz dos cristãos, tanto que chegou a encenar a sua própria crucificação. Talvez a rã desta escultura seja mesmo Kippenberger. Ou talvez esta rã simbolize todas as rãs que, estupidamente, se deixam morrer na cruz para deleite e excitação de Ratzinger e do bispo de Bolzano.
Deixemo-nos de evasivas: quem ofende quem?…

Valter Lemos já foi demitido?… (87)

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Público, 01.03.2008
Quando um secretário de estado censura, publicamente, a actuação política (ainda que no passado próximo) de um colega ministro… que deverá fazer um primeiro-ministro (mais a mais, quando ele próprio fazia parte também do governo censurado)?
Duas hipóteses.
Hipótese 1
Cruza os braços e assobia para o ar, fingindo que não é nada com ele ou que ninguém percebeu.
Hipótese 2
Dispensa liminarmente os serviços do secretário de estado, ainda que ele possa ser seu amigo.
Um primeiro-ministro que assobie, covardemente, para o ar e faça de conta… só poderá merecer o desprezo do país…
Um primeiro-ministro que afirme a sua autoridade… merecerá, pelo menos, o respeito dos seus ministros.
Chegou a hora de José Sócrates mostrar o que vale como primeiro-ministro.

Improviso para Sísifo…

Nenhum gesto é perfeito
com a lua dentro
quando a noite adormece
de mentiras
nenhuma palavra está preparada
para fechar o poema
a memória pede sempre um novo dia
ou um trabalho irrealizável.

Ademar
28.05.2008

O novo Mestre de Aviz!…

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JN, 28.05.2008
Ainda há portugueses assim: corajosos, patriotas, abnegados, intrépidos, indobráveis. A ameaça castelhana nunca passou, como diria Durão Barroso, de um tigre de papel. Carlos Queiroz é a voz dos nossos egrégios avós que há-de guiar-nos, novamente, à vitória. Contra os vilões que nos querem expropriar Cristiano Ronaldo, marchar, marchar! Eu já me alistei. E o leitor? E a leitora? Há pendões para todos, oferecidos pelo MU…
Pim!…

Dicionário das palavras que me cansam… (2)

SINCERIDADE (1) ? Não confundir com? espontaneidade. As crianças, em geral, são espontâneas e parecem sinceras, mas a sua sinceridade, muitas vezes, não passa de uma arma de arremesso dos adultos que as manipulam. SINCERIDADE não rima com crueldade, nem com preconceito. A criança branca que, na escola, diz que o seu colega preto é feio? está a ser sincera? Provavelmente, estará, mas a sua SINCERIDADE é-lhe estranha. E, de todo, não se recomenda?
SINCERO/A ? No princípio, está o quê? O substantivo (sinceridade) ou o adjectivo (SINCERO/A)? E qual a origem etimológica de SINCERO/A? Popularmente, vale a versão fantasista: sine (sem) + ?cera? (mancha). Nesta versão, SINCERO/A seria sinónimo de? imaculado/a (sem mancha). Os etimologistas, porém, não dão há muito para este peditório. SINCERO/A proviria, antes, de ?sincerus?: ?sim? (um só) + ?cerus?(que cresce para a frente). A pessoa SINCERA só tem uma palavra e essa palavra exprime o que pensa. Daí a? qualidade (e a origem etimológica). Qualidade?
SINCERIDADE (2) ? Os amantes gostam muito de se exigir? SINCERIDADE. Imagino, sempre, os seguintes diálogos de alcova: (ele para ela) ? Hoje, vi 3 mulheres muito mais atraentes e desejáveis do que tu?; (ela para ele) ? Lamento dizer-te, mas o Paulo tinha muito mais jeito e dava-me muito mais prazer do que tu?; (ele para ela) ?Há vários dias que tenho vontade de te pôr os cornos?; (ela para ele) ?Hoje, apeteceu-me aceitar o convite do Hugo para jantar?. Etc? Nenhuma relação amorosa resistiria por muito tempo à rotina benemérita da?SINCERIDADE?

Dicionário das palavras que me cansam… (1)

PARADIGMA- Todas as palavras com pedigree, mais tarde ou mais cedo, acabam por se prostituir, por conta dos proxenetas do lugar-comum. Hoje, nenhum académico ou simples opinador diz padrão ou modelo, mas paradigma. Até Popper teria uma compreensão paradigmática da lógica da descoberta científica (esta é muito subtil). No jogo das palavras, em vez de padrão ou modelo, confesso que gosto mais de… tradição. Sou obviamente antiquado e nunca li Thomas Kuhn. Deixo os altares do paradigma aos feirantes da epistemologia (esta também é muito subtil).
TELÚRICO- Aplicado à poesia e à pintura e à música, também se pode escrever no feminino: telúrica. A poesia de Torga, por exemplo, é telúrica. Há adjectivos que são o ganha-pão dos críticos. Claro que, em vez de qualificar como telúrica a poesia de Torga, o crítico poderá sempre usar uma expressão alternativa e falar, simplesmente, do magnetismo embrionário da poesia de Torga. Escrevo no masculino, mas também poderia escrever no feminino: a crítica.
REFERÊNCIA- Obra de referência, autor ou nome de referência. Já se viu, já se leu, já se conhece. A invocação distingue quem a faz. Só os labregos são incapazes de reportar a obras ou autores de referência. Na universidade, é mesmo condição de sobrevivência. Quem não reporta, não merece a jaula, nem a dose de banana….