Improviso cansado…

Sim
há quem prefira as linhas rectas
e a poesia a metro
bem rimada
como a vida
mas eu tenho um problema embrionário
de percepção
perco-me sempre em todas as esquinas
e nunca me encontro com a utilidade
em cidade alguma
sinto-me pois inútil
imprestável
redundante
já não tenho a idade certa
nem os vícios
nem o corpo
e as palavras distraem-me
da missão de salvar o mundo
que me mata
há trabalho a mais
para tão poucas mãos
e eu miseravelmente
só tenho duas.

Ademar
31.05.2008

Repulsa…

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24horas, 31.05.2008
George W. Bush é (foi) o 43º presidente dos USA. Ele conseguiu provar que é sempre possível, em democracia (em ditadura já se sabia), descer ainda mais na escala da indigência política. Por este caminho, Mr. Chance (que saudades de Peter Sellers!) ainda chegará mesmo à Casa Branca…
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Fernando Alberto Ribeiro da Silva…

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Público, 30.05.2008

Há alguns anos que não estou com ele. Teremos notícias um do outro por terceiros. Ele sabe do meu apreço. Eu sei da sua estima. Fernando Alberto Ribeiro da Silva foi, quase sempre discretamente, um dos mais influentes dirigentes regionais e nacionais do PPD/PSD, sobretudo, antes e durante o consulado de Cavaco Silva como primeiro-ministro. Terá sido, aliás, não foi ele que me contou, um dos principais impulsionadores e “negociadores” da candidatura do actual PR à liderança do partido, em 1985.

Durante cerca de doze anos (entre 1980 e 1982, primeiro, e entre 1985 e 1995, depois), Fernando Alberto Ribeiro da Silva desempenhou as funções de Governador Civil do Distrito de Braga. Foi nessa qualidade, exactamente, que eu o conheci e comecei a privar com ele. O Dr. Fernando Alberto, como todos o conheciam e conhecem, sabia que eu não era votante, nem simpatizante do PSD. Mas isso não o impediu, bem pelo contrário, de me abrir, fraternalmente, as portas do seu gabinete e conversar e desabafar comigo. Ele confiava na minha discrição e na minha lealdade e eu jamais traí a sua confiança. Tanto, que ainda hoje mantenho sob reserva (e manterei sempre) as inúmeras confidências que ele, privadamente, gostava de partilhar comigo.

Aprendi a admirar nele o carácter, a integridade e a exigência. Ele não fazia concessões ao oportunismo, odiava a vaidade e a ostentação e cheirava, a léguas, a corrupção e a venalidade. Muitas conversas que tivemos foram, precisamente, sobre isso, sobre a pequenez dos pequenos gestos políticos. Ouvi-o, ao telefone, à minha frente, tratar impacientemente alguns ministros ou secretários de estado, que ele quase desprezava. E sei como Cavaco, tantas vezes, procurava os seus conselhos…

Tudo me separa, politicamente, do PSD, mas respeito profundamente Fernando Alberto Ribeiro da Silva. Ele, como poucos, merece esta homenagem, que tanto honra o PS e o Presidente socialista da Câmara Municipal de Guimarães. Parabéns a todos!…

Valter Lemos já foi demitido?… (89)

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Público, 01.03.2008
Quando um secretário de estado censura, publicamente, a actuação política (ainda que no passado próximo) de um colega ministro… que deverá fazer um primeiro-ministro (mais a mais, quando ele próprio fazia parte também do governo censurado)?
Duas hipóteses.
Hipótese 1
Cruza os braços e assobia para o ar, fingindo que não é nada com ele ou que ninguém percebeu.
Hipótese 2
Dispensa liminarmente os serviços do secretário de estado, ainda que ele possa ser seu amigo.
Um primeiro-ministro que assobie, covardemente, para o ar e faça de conta… só poderá merecer o desprezo do país…
Um primeiro-ministro que afirme a sua autoridade… merecerá, pelo menos, o respeito dos seus ministros.
Chegou a hora de José Sócrates mostrar o que vale como primeiro-ministro.

Improviso para saudar Leonardo…

Hoje
entre musas dissonantes
encontrei mais uma vez Leonardo
no bar do Chelsea Hotel
diante de um copo de cicuta
que me pareceu finalmente genuína
os sapatos lustrados
por sobre um poema
que ardia
nenhuma valsa
e um tango oblíquo.

Ademar
30.05.2008

Os três de Lúcia e o quarto (segredo de Fátima)…

Ei-los aqui, em toda a sua pujança metafórica, os três segredos de Fátima, narrados pela pastorinha que sobreviveu à hecatombe miraculosa…
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Paulo Aido, A Mensagem da Irmã Lúcia
Há, nesta narrativa, pelo menos, três pormenores que me impressionam fulminantemente.
Primeiro
Lúcia reconhece que, à vista do Inferno, teria morrido, de susto e pavor, se a Senhora, na ocasião, à partida, não lhe tivesse garantido o céu em caso de morte súbita. É verdadeiramente admirável como, perante a garantia celestial, a miraculada não optou por morrer logo ali…
Segundo
Em 1917, ano a que se reporta a narrativa de Lúcia, a Senhora de Fátima já sabia que, em 1922, ascenderia ao trono de S.Pedro o Arcebispo de Milão, Ambrogio Ratti. Mais: também sabia que, em 1939, ano do desaparecimento de Pio XI, eclodiria uma guerra, ainda pior do que a anterior. Assim se prova, definitivamente, a presciência de Nossa Senhora de Fátima…
Terceiro
Na terceira parte do Segredo, a Senhora de Fátima antecipa a tragédia que, um dia, se abaterá sobre a igreja católica. Estranhamente, porém, não revela a identidade (ou, pelo menos, a proveniência) dos assassinos do Santo Padre. Que quererá significar este silêncio, aparentemente, cúmplice? Ou terá sido antes a narradora que preferiu omitir esse dado? É aqui, precisamente, que começa o quarto segredo de Fátima, que um dia revelarei..