Náusea…

A abstenção do PS fez com que o projecto de lei do BE que previa o divórcio a pedido de um dos cônjuges tivesse sido chumbado, hoje, no parlamento pelos deputados da direita. A originalidade ou subtileza da coisa está em que o PS já tinha anunciado que queria acabar com os divórcios litigiosos. Lógico seria que tivesse, entretanto, apresentado o seu próprio projecto ou que, aprovando na generalidade o projecto do BE, depois lhe introduzisse, na especialidade, as alterações consideradas necessárias. Nem uma coisa, nem outra, antes pelo contrário…
Mas o que me choca ainda mais na discussão deste dossiê é a hipocrisia e o atrevimento com que certos comentadores e certos políticos (sobretudo, da direita) se distanciam, criticamente, das propostas de simplificação do divórcio. Quem não conheça as suas vidas, até poderá pensar que estão a ser coerentes e honestos. O problema é que a maior parte deles já passou por um, dois ou mais divórcios (e, em alguns casos, divórcios sujos, muito sujos). Aliás, políticos profissionais e jornalistas terão sempre muita dificuldade em manter casamentos, a não ser que os cônjuges aceitem enviuvar em vida do parceiro ou da parceira…
Ouvir a este gente discursos inflamados sobre o “perigo” dos divórcios a pedido… provoca-me náuseas. Não é falta de vergonha: é falta de carácter.

Declaração de interesses: sou (formalmente) divorciado há, pelo menos…30 anos.

Basta de depressão!…

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Esta fotografia tem mais de duas décadas. Já não me recordo dos nomes, mas recordo-me bem da situação. A miúda mais crescida, à direita, tinha deixado de ir à escola. Suponho que teria, nesta altura, 11/12 anos e andaria no quinto ou sexto ano. A directora de turma mandava postais para casa, mas ninguém respondia ou parecia preocupar-se. A questão foi levada ao Conselho Pedagógico da Escola. Fiquei tão impressionado com o que ouvi aos meus colegas que, num impulso que os cínicos qualificariam como romântico, me ofereci para ir a casa da miúda falar, directamente, com o pai e tentar esclarecer a situação (a mãe falecera recentemente). Meti-me no carro sozinho (ninguém mais quis acompanhar-me) e lá fui à aldeia, recôndita, onde vivia a miúda.

Jamais esquecerei o que vi nesse dia. O pai destes miúdos era quase analfabeto, trabalhador agrícola (quando lhe davam serviço) e vivia com os sete filhos num casebre. Em baixo, dormiam os porcos; por cima, vivia a família toda numa única dependência, que servia ao mesmo tempo de quarto e de “cozinha” e do mais que se queira imaginar. Os colchões estavam espalhados pelo chão, como os demais haveres da família. A tanto se resumia o mobiiário da “casa”.

Rapidamente percebi que a miúda deixara de ir à escola porque, simplesmente, tinha de ocupar o lugar da mãe que falecera. Cabia-lhe agora tratar dos irmãos mais novos (alguns ainda bebés) e cuidar de toda a lida da casa, enquanto o pai fazia o que podia (e, sozinho, podia pouco) para garantir a sobrevivência da prole.

Ao contrário, porém, do que se possa julgar, encontrei naquela casa um sentido de honradez e uma coragem que me marcaram para sempre. Apesar de viverem no estrume, aquelas crianças pareciam saídas de um conto de fadas. Eram educadíssimas, corteses, delicadas. Quando conheci o pai, percebi porquê. Era um homem alto, tranquilo, sensato, “culto”, e adorava os filhos. Quando me expôs, a chorar, as circunstâncias em que a mulher adoecera e morrera (fulminantemente), só consegui abraçá-lo.

Não importa o que a escola conseguiu fazer por esta gente. Mas fez o que era possível, envolvendo outras instituições. E a miúda voltaria à escola, sem prejuízo para os irmãos e para o pai que tanto dependiam dela.

Recordo esta história (que não tem nada a ver, atenção, com a Escola da Ponte) apenas para me dizer a mim próprio que ainda faz sentido, hoje, ser professor. E que a escola pública não está condenada a ser apenas a foz de todas as misérias sociais. Pode também ser um dique e pode também ser uma ilha. Repense-se, por isso, o papel civliizacional da escola. E a sua organização. Só assim se conseguirá devolver-lhe (e aos professores) a autoridade que parece irremediavelmente perdida…

Pornografia intemporal à moda de Braga…

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Esta estátua de Diana, a deusa da caça, foi durante um quarto de século (grosso modo, entre 1951 e 1974) um dos ex-líbris de Braga. Indígenas e forasteiros acorriam ao Nosso Café, na então Avenida Marechal Gomes da Costa (hoje, como antes, da Liberdade), para confirmar se a estátua estava ou não descoberta. Conforme os humores de quem mandava na parvónia, em nome de Salazar e Cerejeira, Diana vestia-se ou despia-se. Era o Portugal dos Pequeninos à moda de Braga.
O Nosso Café que eu conheci já não existe e, francamente, não sei que destino foi dado a Diana. A pornografia, hoje, é outra. Tem a forma da ponta de um báculo arquiepiscopal…

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Cinco fotografias para a Laura, em dia de aniversário…

Esta é a forma mais simples de, publicamente, te dar hoje os parabéns… Presumo que não vias, há muito, estas fotografias. Podia ter escolhido outras: escolhi estas. Não saberia dizer porquê. Talvez tu saibas. Tens sempre uma explicação racional para tudo…

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Esta fotografia, tirada na Póvoa de Varzim, está datada pelo punho do nosso pai: 23.07.1961. Muitas vezes foi assim nas nossas vidas: eu sorria, enquanto tu choravas. Os cancros que te visitaram (eu sei e tu sabes) são lágrimas que erraram a alma…

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No segundo volume do Diário escreves sobre o Baixinho. Este, no teu colo de adolescente, é o Tzara, um cão surrealista. Ao fundo, uma ponte centenária que já não existe. Sobre ela, como atestam outras fotografias, tinham namorado os nossos pais. À distância, como na época se impunha. A mesma distância, aliás, a que sempre nos guardaram…

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Eu tenho o hábito de não datar as fotografias que faço, como se, afinal, aspirasse a que o tempo não entrasse por elas. Este é um pormenor de uma fotografia tirada pouco antes do 25 de Abril, num estádio que ainda se chamava 28 de Maio. Um ano depois, derrubada a ditadura, passaria a… 1º de Maio. Lembras-te das palavras cínicas e sábias de Tomasi di Lampedusa? É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma…

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Diante desta mesma coluna, na Aveleda, posaram quase todos, os velhos e os novos (como na sequência final de um filme de espectros). Como diante do espigueiro, que aliás já não existe. A eternidade das coisas não está em nós, mas nelas próprias. Esta fotografia sobreviver-nos-á…

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Este é o “menino” a que te diriges, comovedoramente, no segundo volume do Diário. A fotografia é de Agosto de 1993: tinha então o Francisco 7 meses. Passaram 15 anos. As partituras voam agora sobre o piano…

Valter Lemos já foi demitido?… (25)

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Público, 01.03.2008
Quando um secretário de estado censura, publicamente, a actuação política (ainda que no passado próximo) de um colega ministro… que deverá fazer um primeiro-ministro (mais a mais, quando ele próprio fazia parte também do governo censurado)?
Duas hipóteses.
Hipótese 1
Cruza os braços e assobia para o ar, fingindo que não é nada com ele ou que ninguém percebeu.
Hipótese 2
Dispensa liminarmente os serviços do secretário de estado, ainda que ele possa ser seu amigo.
Um primeiro-ministro que assobie, covardemente, para o ar e faça de conta… só poderá merecer o desprezo do país…
Um primeiro-ministro que afirme a sua autoridade… merecerá, pelo menos, o respeito dos seus ministros.
Chegou a hora de José Sócrates mostrar o que vale como primeiro-ministro.

Improviso para adormecer metáforas…

O poema é uma vitrina
de palavras
que nenhuma mão alcança
nenhum olhar retém
uma ilusão
que acende apenas fascínios
e bruxedos
nas chamas que ardem
nos entreditos
o poema é sempre um perfume
a cheirar por dentro
do pensamento que o engravida.

Ademar
26.03.2008

A neta preferida de Camilo…

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Marques Abreu, Vida Rústica – Costumes e Paisagens, 1924
Raquel Castelo Branco, com trinta e poucos anos, fotografada diante da Casa de Camilo, em São Miguel de Seide. Ana Plácido fora, poeticamente, a Raquel de Camilo…