Improviso em forma quase de elegia…

Conheço homens
que já foram puros
quero dizer
que não vendiam destinos de empréstimo
nem usavam calculadora
na hora de conjugarem o verbo
pensar
tão pouco voláteis e conformes
que arriscavam sempre na ousadia
muito mais do que o futuro
agora só reconheço rebanhos crispados
e pastores e cães de fila
cabem todos na tela da monotonia
digo na trela
e já nenhum na moldura inteira de si próprio.

Ademar
29.02.2008

Por mais que Alice…

eu nunca me abandonarei
se me perder, recolho-me
e olho muito
até achar o fio de luz
e depois sigo-o
a algum lugar
sem medos
até o abismo
tem fundo
e se no fundo do abismo
se esconder a dor
a outra dor
quem desmente Alice?
Ana Saraiva

Não sei quem processaria: se Alberto Martins, se José Sócrates…

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Hoje, pela manhã, ia batendo com o carro. Explico. Estava a conduzir, sintonizado na TSF, onde passava, em directo, o debate quinzenal na Assembleia da República com o primeiro-ministro. A páginas tantas, tomou a palavra o líder parlamentar do PS, Alberto Martins, que questionou “severamente” José Sócrates, exigindo-lhe que falasse sobre… “obras públicas”. O primeiro-ministro começou a responder, elogiando a pertinência e a especial argúcia do questionamento: ora aqui está, finalmente, uma pergunta que interessa aos portugueses! Não garanto que tenha dito exactamente isto, mas, por estas ou por outras palavras, foi o que quis dizer. Comecei a rir, a rir, a rir. Era tudo tão saloio e tão pacóvio que não consegui contar a gargalhada. Parecia uma brincadeira de putos. Já sabes, Alberto, quando chegar o momento de intervires, dizes as balelas do costume e pedes-me que fale sobre… obras públicas. E o Alberto, que até é bom rapaz, fez o frete, convidando-se à caricatura. Gargalhei tanto, que quase ia perdendo o controlo da viatura e atropelando algum peão (certamente, eleitor da maioria)…
Se tivesse batido, não sei, francamente, quem processaria: se Alberto Martins, se José Sócrates. Eles, hoje, pareciam mancomunados no baixo propósito de fazer rir o país das suas próprias misérias. Há dias, confesso, em que sinto vergonha de ser português…
E pensar eu que, há mais de 20 anos atrás, fiz com o Alberto a campanha presidencial da Engenheira Pintasilgo! Como o tempo, o “estatuto” e a paixão partidária mudam as pessoas e as tornam tão risíveis…

Universidade do Minho: ecos de uma censura que nunca o foi, claro!… (1)

A propósito do que já aqui publiquei sobre o caso da censura ao docente Daniel Luís (onde está escrito “censura”, lede, por favor, “aconselhamento”), registo o comentário do leitor Dario Silva. Espero que os professores que, internamente, já tomaram posição sobre o assunto (ainda há gente, na UM, que se respeita a si própria)… me autorizem também a divulgar o que escreveram.
Pois é, coisas com piada.
Se eu não tivesse sido vítima pessoal da pressão e censura do sr. reitor da Universidade do Minho, sr. eng. Guimarães Rodrigues, não acreditaria na estória… assim… acredito piamente na possibilidade de existir censura dentro da UM.
(Isto pode-se escrever?)
Ainda um dia gostaria de perguntar pessoalmente ao digníssimo reitor da Universidade do Minho como foi possível que ele, o digníssimo reitor, acedesse ao pedido via telefonema pessoal do seu amigo (?) o sr. presidente da Câmara Municipal de Celorico de Basto, ex.mo sr. Albertino Mota e Silva, para que eu encerrasse o meu site cultural sobre caminho de ferro (www.ocomboio.net) porque, depreendo, não terá gostado de ler alguns factos ocorridos em Celorico e, até agora, indesmentidos.
Mas como são todos grandes democratas, vou fazer de conta que nunca me telefonaram com instruções da digníssima reitoria da UM a, de alguma forma, me tentarem silenciar!
É verdade é sempre incómoda, sobretudo aquela que põe a nú a mente grandiosa de alguns sócios da República.
Dario Silva

Improviso para Luchino Visconti…

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Morre-se em Veneza
como noutra cidade qualquer
as agências de viagens só vendem
ilusões de eternidade
e nem sempre a preços convidativos
evite-se o Lido e os enjoos póstumos do vaporetto
fica sempre mais barato morrer em Mestre
a montante do que já foi a ponte da liberdade.

Ademar
28.02.2008