Entre toda a luz e algumas sombras – memórias de uma viagem interior (69)…

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As rabanadas eram apenas quatro e o bolo-rei, com fava ou sem ela, está quase no fim. Não sei bem se agradeça à D.Laura ou à D.Júlia a memória dos sabores e a recompensa das iguarias. Talvez deva antes agradecer à sempre furtiva mensageira do tempo infinitamente breve. Por um colo, os gatos trocam quase tudo, até vidas. Por um altar, trocas de mãos e de pudores. Até talvez de amigos. Mas ninguém te penetra tão profundamente como quem bebe da fonte dos teus silêncios e das tuas raivas. E nunca se defende da força traiçoeira, quase assassina, dos teus dentes. Não importa que viajes a solidão noutros corpos. E o prazer que fulmina. Há feitiços que engravidam o pensamento, feitiços de que só o diabo conhece a receita. E a fórmula libertadora. Quantas vezes, diz-me, tentaste já, em vão, libertar-te, arriscando o antídoto de outros feitiços? O pensamento amoroso é uma cela, de que poucos fogem em segredo. Por mais que ouses o anonimato e a máscara, há sombras que sempre te perseguem e denunciam: gestos muito simples, perguntas ocasionais, olhares e movimentos cúmplices que ressoam, solenemente, uma ternura guardada a sete ou mais chaves no baú da alma. Podes acreditar: há feitiços que engravidam mesmo….

Uma machete pirocténica…

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Correio da Manhã, 02.01.2008
Se fosse realmente assim, seria verdadeiramente estúpido. Mas não é… não poderia ser. O Correio da Manhã tresleu o sentido das orientações ministeriais nesta matéria, para inventar, simplesmente, uma manchete incendiária. Ano novo… vida velha…
Declaração de interesses: sou ateu e laico e não morro de amores pelo governo. Mas tenho de admitir, para ser ou parecer imparcial, que há idiotices que nem a actual equipa ministerial da educação ousaria patrocinar…

A mistificação estatística…

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Notícias Magazine, 30.12.2007
Há quem brinque com as estatísticas e com a ignorância dos que, nada ou pouco sabendo, acreditam em tudo. Ao denunciar esta mistificação, António Nóvoa poderá, tão cedo, não chegar a ministro, mas presta um inestimável serviço ao país – pelo menos, à parte do país que ainda não rasteja…

Uma cascata…

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Nunca fixei o nome desta cascata. Nem sei se terá sido baptizada. Mas sei que a tenho sempre nos olhos. Desde a primeira vez que a vi. Uma cascata: uma metáfora…

Um verdadeiro Mestre (com maiúscula)…

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Notícias Magazine, 30.12.2007
Há poucas pessoas, em Portugal, a pensarem bem os problemas da educação e do ensino. António Nóvoa* é uma delas. Tudo o que ele diz e escreve reflecte inteligência, estudo, sensibilidade e conhecimento. Distintamente dos gabirus que tanto gostam de arrotar postas de pescada sobre o que não entendem, Nóvoa convida sempre, serenamente, à reflexão e não ao panfletarismo de ocasião. E foi preciso que chegasse a reitor da Universidade de Lisboa para que, finalmente, o país “iletrado” começasse a lê-lo e a ouvi-lo. Espero que aproveite alguma coisa…
* Declaração de interesses: conheço o António Nóvoa desde a juventude e somos amigos. Penso que ainda não é crime…

Improviso para acertar a bússola…

Nos olhos ainda o rasto do teu preto mais íntimo
e o vento no lugar das mãos
e viajo agora contigo
para que a noite encaminhe os teus passos
e uma luz nos proteja
e assim te devolvo ao silêncio
mais antigo de todos
o da nossa infinita perplexidade.

Ademar
01.01.2008