Improviso por conta da prosa em dívida…

Hoje pensei um romance
só não encontrei ainda as palavras
com que poderia escrevê-lo
há mais de vinte anos pelo menos
que penso o mesmo romance
e baralho as palavras
como quem tropeça e atrapalha a vida
por vezes acredito que nasci apenas
para escrever esse romance
e foi assim que engravidei
talvez me sobrem palavras
ou me faltem
ou simplesmente tempo
para amadurecer nelas.

Ademar
29.01.2008

Duas notas sobre a… “Abertura do Ano Judicial”…

1
Todos os anos o Supremo Tribunal de Justiça organiza aquilo que, pomposamente, designa por “Sessão Solene de Abertura do Ano Judicial”. Parece que os juízes conselheiros ainda não perceberam como é ridículo abrir um ano, seja do que for, em finais do mês do Janeiro. Simbolicamente, é um desastre, ainda que um desastre verdadeiro ou autêntico. De facto, a justiça em Portugal anda sempre muito atrasada…
2
Não sei se José Policarpo, o cardeal hissopista, esteve na “Sessão Solene de Abertura do Ano Judicial”. Sei, apenas, que se associou à distância ao evento, perorando na Sé Patriarcal de Lisboa sobre a justiça e sublinhando, narram as agências, “o valor da lei natural”. Policarpo é um pândego. A única “lei natural” que eu conheço é o poder arbitrário do mais forte sobre o mais fraco. E foi, precisamente, contra esse poder que se foi erguendo, ao longo dos séculos, o direito. O fardo do hissope perturba, claramente, o discernimento desta purpuradíssima criatura…

Era um vez um ministro que andava, coitado, a tentar tratar-nos da saúde…

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A notícia ineeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeesperada e impreviiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiista da demissão de Correia de Campos, não sei porquê, transportou-me esta tarde a Sérgio Godinho e a uma das quadras do Coro das Velhas
E saúde, eu tenho p’ra dar e vender
não preciso de um ministro para ter
tudo o que ele anda a ver se me pode dar
pode ir ele p’ro hospital em meu lugar
Sérgio Godinho, Coro das Velhas

Todos os nomes ou os nomes de todos?!…

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24horas, 29.01.2008
Nomes, nomes, nomes… todos querem nomes, como se essa fosse a questão principal. Marinho limitou-se a chamar a atenção, genericamente, para um cancro que vem, de há muito, minando a democracia portuguesa. Toda a gente sabe que esse cancro existe, toda a gente sabe por que existe e toda a gente sabe o que tem sido feito para… anestesiar o doente. As vestais do costume fingiram-se, porém, muito indignadas e apontaram o dedo amedrontador ao Bastonário da Ordem dos Advogados, exigindo-lhe nomes, muitos nomes. O meu amigo Marinho, se o conheço bem, deve estar cheio de medo…

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Diário do Minho, 29.01.2008
Três livros, três cargos. Melo serve a Deus com três livros, num mútiplo orgasmo editorial. Lino serve a Pátria com três cargos: na administração de dois hospitais públicos (Braga e Barcelos) e na regência de uma disciplina, na UM. Este é o Portugal que mexe, que cria, que se desdobra e que espanta.
Melo, para além de escrever e publicar em catadupa, ainda zela pela preservação das boas práticas futebolísticas, no Sporting Clube de Braga.
Lino, para além de assegurar a sobrevivência de dois hospitais e uma universidade, ainda carrega o fardo de ser irmão do eterno presidente da Câmara de Braga, Francisco Mesquita Machado.
Esta gente, definitivamente, não vê Braga por um canudo…

Uma Guerra Civil quase anunciada… *

Primeiro dia do ano. Ruas desertas. Um ou outro passante, descontraído na preguiça de mais um feriado. Ia olhando para os cafés que me são habituais, de tanto os frequentar. Tudo fechado, que o negócio já acabara no dia anterior. Refugiei-me na Mexicana, que pouco frequento. Entrei, distraído, e logo ali senti sobre mim o peso de mil olhos, fixados num cachimbo sem tabaco no fornilho.
Ao fundo havia uma mesa vaga e, enquanto me dirigia para a ocupar, verifiquei que ninguém estava a fumar, o que para mim já não constituía novidade, já que, ainda em casa, vira numa reportagem televisiva o respectivo gerente a vangloriar-se com militante entusiasmo que ali estava a cumprir-se a nova lei antitabagista, embora se tivesse engasgado, perante a jornalista que o entrevistava, ao debitar a escusa à realização de quaisquer obras naquele espaço, para permitir a sua utilização por fumadores, refugiando-se no argumento dos elevados custos, argumento este de muito peso e que possivelmente não escapou à matreirice do zeloso legislador que adivinhou, divertido, o efeito paralisante das respectivas exigências técnicas para essas obras.
Mal me sentei, confrontei-me com os olhares agrestes e suspensos de três velhas, que pararam a sua viva palração, quando repararam no meu cachimbo, pendurado nos dentes. Agitaram-se, e todas, ao mesmo tempo, como se fossem autómatos, se inclinaram para a frente, muito hirtas e concentradas. Nem pestanejavam, tal era a sua ânsia em descortinar uma onda de fumo a sair do fornilho. Pareciam sanguessugas, pensei. Comecei a ler o jornal, fingindo não ter reparado na animosidade da recepção, enquanto lhes espiolhava os gestos pelo canto do olho. Reclinaram-se nos espaldares das cadeiras e começaram a cochichar umas com as outras, fazendo esgares alarmantes. Voltaram a olhar-me, e eu resolvi sacar da bolsa do tabaco, que pousei no tampo da mesa. A excitação reacendeu-se nos olhos das três velhas, que voltaram a inclinar-se para a frente, agora com um ar mais determinado. Deixei que se cansassem naquela incómoda posição, até resolverem, todas ao mesmo tempo, reencostarem-se novamente nas suas cadeiras, para eu iniciar com gestos vagarosos o enchimento do fornilho do cachimbo, enquanto aparentava mostrar muita atenção ao que simuladamente estava a ler no jornal. Um ritual mil vezes ensaiado, mas que ali eu sopesava com extrema paciência e rigor. Os dedos e o calcador iam apertando o tabaco no fornilho, e as velhas seguiam, como se de um maléfico efeito hipnótico se tivesse apossado delas, todos os meus movimentos que, a medir pelos irreprimíveis sinais de impaciência, as exasperavam. E foi quando abandonei o cachimbo no tampo da mesa, para poder segurar o jornal com ambas as mãos, último gesto, este, assim exigido ao leitor que tropeça, sem disso estar à espera, numa inusitada notícia que lhe desperta subitamente o interesse, que voltaram a reencostar-se, soltando uma exclamação que, ainda hoje, não sei se foi de alívio ou de desilusão.
Assim as deixei, entregues às tagarelices, que rapidamente retomaram, ao mesmo tempo que passaram a ignorar-me, enquanto eu, segurando o jornal com as duas mãos, continuei a ler a tal noticia, e que me obrigou, com estudada simulação, a uma maior concentração.
Não lhes dei tréguas por muito tempo. Num gesto rápido e decidido, largo o jornal, coloco o cachimbo na boca e começo a apalpar todos os bolsos à procura do isqueiro, que eu sabia já estar em cima da mesa, por aí o ter colocado mal me sentei. As três velhas deram um estremeção nas cadeiras e, novamente, voltaram-se para mim. Uma delas já olhava para trás, para o balcão, julgo que para descobrir o gerente, que já estava a resguardada distância a observar-me atentamente, sem que eu me apercebesse da sua presença vigilante. A velha esboçou um sorriso de satisfação, depois de certificar-se de que se poderia contar com a inestimável ajuda daquele importante aliado, na sua primeira investida na sagrada cruzada antitabagista.
Peguei finalmente no isqueiro. Agarrei-o e coloquei-o em posição para o accionar, mas reincidi na descoberta de uma outra notícia do jornal a despertar-me a atenção, e ali fiquei a lê-la com afincada concentração, enquanto o antebraço, com o cotovelo assente no tampo da mesa, ficara em suspensão, por um tempo indeterminado que, para as três velhas, nunca mais acabava.
A velha que se certificara da presença vigilante do gerente e que, das três, era a que revelava mais impaciência, levantou-se, amparou o casaco que trazia pelos ombros, e, lesta, encaminhou-se para uma mesa próxima, onde um senhor anafado lia o jornal. A intimidade entre ambos era visível, pois a um cochicho da velha, aquele senhor, com um ar de funcionário público aposentado, levantou os olhos por cima dos óculos e olhou na minha direcção, para depois, perante as palavras da velha, que deveriam ser de indignação, tal como se podia observar pelos seus esgares que lhe arrepelavam as peles do rosto, ensaiar com a cabeça sucessivos gestos afirmativos de inteira e absoluta concordância.
Quando o gerente estava quase a desistir da sua apertada vigilância, por, possivelmente, outros afazeres lhe reclamarem a imprescindível presença, accionei a chama do isqueiro. As velhas, o gerente e o senhor anafado estancaram de repente e ali ficaram estáticos e com a respiração suspensa, a olhar, ansiosos, a chama bruxuleante do meu isqueiro, que eu mantinha aceso, com o braço apoiado e imóvel, enquanto voltei a uma nova e concentrada leitura.
As velhas pareciam hipnotizadas, o senhor anafado olhou em redor, com um sorriso imbecil, para se certificar se outros clientes também estavam a ver aquilo que ele via, e o gerente levou a mão ao bolso, dando-me tempo para observar o movimento discreto da sua mão a agarrar um pequeno objecto cinzento, ficando-me a dúvida, ainda hoje não esclarecida, se se tratava de um telemóvel ou de uma pistola.
Apaguei a chama do isqueiro, pois já estava a queimar-me, e coloquei-o novamente no tampo da mesa para dar toda a minha atenção à leitura concentrada do jornal. As velhas soltaram em simultâneo, e com uma estridente sonoridade, um suspiro de desânimo, o gerente retirou a mão do bolso e encostou-se a uma coluna, não renunciando à sua atitude vigilante, e o senhor anafado procurava o olhar da velha que antes se lhe dirigira, mas que, agora, já lá vai, muito aflita, em passinhos miudinhos e rápidos, num trejeito cómico, a caminho dos lavabos, talvez movida pela urgência de uma provável incontinência urinária a manifestar-se.
Sem me dar conta, já os clientes de todas as mesas estavam a olhar-me com interessada curiosidade e uma pouca discreta animosidade, enquanto alguns, para demonstrar o lado da trincheira em que combatiam, teciam em voz mais alta, para eu ouvir, comentários laudatórios à nova lei, entrada naquele dia em vigor.
As velhas, agora com o trio recomposto, pois aquela que tinha ido, aflita, aos lavabos já regressara, aliviada, ao seu lugar, entraram em grande excitação, visível na forma como nervosamente agitavam as pernas, ao verificarem que toda a clientela da Mexicana, ali presente, estava alertada para se lançar sobre mim, se eu cometesse a ousadia de acender o cachimbo, infringindo a nova lei, que protege os não fumadores, mas estigmatiza os fumadores.
Correndo riscos, resolvi regressar à encenação do isqueiro. Ali ficou pendurada a chama a excitar toda a gente, com alguns clientes, onde não estavam incluídas as velhas, nem o senhor anafado, nem o gerente, a suspeitarem das minhas verdadeiras intenções, a adivinharem a pilhéria ou a provocação de um mais um fumador ressabiado com a lei proibicionista.
Apaguei a chama, dobrei o jornal, a sinalizar o fim da leitura, e voltei a accionar o isqueiro, atrevendo-me a simular o gesto de acender o cachimbo. A tensão atingiu o rubro. O gerente desencostou-se da coluna e ensaiou com energia uns passos na minha direcção, o senhor anafado tirou os óculos e debruçou-se para a frente com as mãos apoiadas no tampo da mesa, e as três velhas, excitadíssimas, saltaram das cadeiras, como se uma mola as impulsionasse, e já se preparavam para também saltar sobre mim, se eu, num gesto rápido, não tivesse apagado o isqueiro, e rapidamente o recolhesse no bolso, juntamente com a bolsa do tabaco. Levantei-me com um ar descontraído, como se desconhecesse toda aquela súbita agitação e, calmamente, saí do café, para grande desilusão das velhas, que ficaram ali de pé, especadas, e com um ar espantado, e também para grande alívio do gerente, que viu afastado do seu estabelecimento o perigo de uma desagradável complicação.
Já cá fora, em plena Praça de Londres, pensei que, se, na realidade, tivesse acendido o cachimbo no interior do café Mexicana, poderia ter desencadeado uma trágica guerra civil em Portugal.
Alexandre de Castro
Janeiro de 2008

* Agradeço ao autor a partilha do texto.

É preciso que, de vez em quando, alguém responda em tribunal, para que tudo possa ficar na mesma…

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Correio da Manhã, 29.01.2008
Felizmente, Avelino Ferreira Torres só há um: este e mais nenhum.
Todos os outros autarcas e ex-autarcas, governantes e ex-governantes, gestores e ex-gestores… são gente impoluta e insuspeita. Muitos, é certo, enriqueceram e prosperaram de uma forma aparentemente inexplicável, mas… a sorte anda por aí e, neste país, oportunidades (novas e velhas) não faltam…