Improviso para antecipar a planície…

Já fui muitas vezes ao centro da terra
e não voltei

tenho as paredes grudadas à superfície das mãos
e tacteio apenas
erro as janelas e as portas
para sair
e fico sempre aqui
a escorrer pensamentos de clausura
há quem fuja para as montanhas
e não olhe para trás
talvez eu já não caiba em nenhuma tenda
talvez a noite lá fora
esteja ainda mais fria do que as palavras
que enregelam ao vento
talvez eu tropeçasse os caminhos
talvez errasse também os mapas
há passos em que o coração fraqueja
vivo agora mais próximo dos pés
que não troco
sei que nenhuma montanha é eterna.

Ademar
27.11.2007

Entre toda a luz e algumas sombras – memórias de uma viagem interior (45)…

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O universo, por vezes, começa e acaba em nós. Nada mais nos importa. Olhamos em volta e só vemos ou pressentimos o pântano, onde todos se afundam, antes de nós. Quando começo a pensar o outro, construo uma ponte sobre o pântano. E começo a pensar-me. E o pensamento preenche-me. Há um sofrimento interior que é feito de muitos silêncios, de muitas ausências e de muitos pudores. O pudor, mesmo, de se negar como sofrimento e de se afirmar apenas como egoísmo. Não, o egoísmo não passa por aqui, por essa incapacidade visceral, patológica e patogénica, de atender ao outro. O sofrimento que dói pede, intimamente, perdão. Compreensão. Não quer magoar, mas lamber apenas as próprias feridas. Quem sofre assim e faz sofrer assim… está disponível também para aceitar todos os castigos e todas as punições. E não reclama, nem se insurge, quando as vitimas se excedem na expressão do inconformismo. Da inquietude. No protesto. Há solidões encastradas que apelam todos os dias à justiça e à ternura do chicote. E que só o recusam quando, finalmente, voam sobre o pântano. E se deixam integrar no universo…

Prevenção…

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Não é propriamente o filme mais conseguido de Orson Welles (Kafka merecia muito mais), mas se comprardes e virdes esta edição… dispensai as legendas em português. O filme foi legendado por um analfabeto…

Improviso para alvorar…

O medo não tem palavras
sofre de todos os gestos em que tropeças
esse abraço que não ousas
o olhar que recusas
as mãos que o pudor algema
e todos os silêncios que gritam
anoiteces sempre devagar
adiando a morte na alvorada.

Ademar
26.11.2007