Entre toda a luz e algumas sombras – memórias de uma viagem interior (48)…

beta.jpg
De tanto treinares o silêncio, como que perdeste o sentido e a noção da resposta. Raramente respondes, a não ser com a mudez do corpo. E, algumas vezes, a nudez. Parece que as tuas palavras nunca esperam ou subentendem o diálogo. Digo: as palavras que dirias, se o teu pensamento mais íntimo não ficasse sempre refém das cordas vocais. Mesmo as raras perguntas que fazes viajam quase sempre com a resposta (implícita) dentro delas. Desconheces a gramática das pausas e do contraditório. Não reconheces sinais de pontuação. Todos os teus poemas começam e terminam em monossílabos. E dizes sempre tudo…

b2.jpg
Sábado, 22.11.2007
Com uma semana de intervalo, a Sábado e a Visão propõem, em capa, aos leitores roteiros de viagem (outono/inverno) em Portugal. A Sábado arrisca “os 12 lugares mais bonitos”; a Visão, simplesmente, sinaliza “10 refúgios para fugir ao stress”. A Visão, que saiu uma semana depois da Sábado, anda notoriamente a cabular…

Resposta a uma leitora…

Uma leitora e comentarista habitual, que julgo desconhecer, pergunta-me quando publico os meus textos. Deves andar distraída, “Cândida”: há mais de três anos que os publico aqui. Só não tenho é pachorra para procurar editora, depois de a ASA, que lançou o meu primeiro livro de poesia, ter mudado de gerência…

Greve, claro!

carvalho.jpg
Público, 30.11.2007
Hoje, desde que me levantei e comecei a sintonizar o planeta, digo, a greve, só tenho visto e ouvido Carvalho da Silva. Já esperava. O que talvez não esperasse era folhear o Público e encontrar duas páginas inteiras dedicadas a… Carvalho da Silva. Li-as enquanto almoçava e reforcei uma ideia antiga: a CGTP não terá tão cedo à sua frente um tipo tão decente e respeitável como Carvalho da Silva…

Embaixador britânico no Allgarve…

Numa reportagem sobre o caso Maddie, ouvi há minutos na RTP1 uma voz feminina em off falar do “embaixador britânico no Algarve”. Estava distraído a conversar com uma dourada grelhada, mas ainda fui a tempo de registar o título. Confesso, humildemente, que ignorava que o Reino Unido já tivesse embaixada no Allgarve…

Baile de bombeiros…

baile.jpg
24horas, 30.11.2007
O grande criminologista-guionista-autarca ou autarca-guionista-criminologista já tem matéria para se entreter nas horas vagas do caso Maddie. Nunca se sabe quando o sexo a três (ou a mais) conduz ao crime…

Ludwig…

ludwig.jpg
Hoje, antecipando a greve, alvorei para rever Visconti e Ludwig, nessa fabulosa e impressionante reencarnação de Helmut Berger. Há filmes que ganham densidade e magia com o tempo. Ou seremos nós?…

Entre toda a luz e algumas sombras – memórias de uma viagem interior (47)…

beta.jpg
Sempre estranhei a posição do corpo, suspenso sobre o abismo, digo, sobre o chão. Como se, em repouso, não soubesses dialogar intimamente com a proximidade de outros corpos. Uma noite, mesmo, desertaste, fugiste. Lembras-te? Depois dessa noite, nunca mais quiseste arriscar. Não estou nada certo de que fosse da insónia. Reencontrei-te ao fundo da sala numa espécie de transe sonâmbulo, algo muito próximo de um surto hipnótico. Era já madrugada e as muitas e altas vozes subiam e desciam as escadas de um prédio atónito. Já não me recordo se dormias. Recordo-me, sim, de que o teu corpo parecia um livro desarrumado na estante, com as folhas dobradas ou encarquilhadas. Uma mão esquecida sobre um comando alternava distraidamente canais, mas os teus olhos pareciam ausentes, longe, muito longe do que sobrava de ti. Acho que foi nessa madrugada que, definitivamente, percebi que não podia virar-te as costas, que não podia abandonar-te. Há conflitos interiores, tão antigos quanto a nossa própria existência, que jamais seremos capazes de resolver sozinhos. Na manhã seguinte, gritaste a uma mulher que passava (nem deves ter reparado que era uma mulher) essa espantosa incompreensão do afecto e da teimosia e, regressando a uma espécie de infância ou adolescência castrada, tocaste depois campainhas, como que provocando e desafiando o universo ali tão próximo e tão distante. Regressei ali a Granada, abracei-te, e disse-te ao ouvido ou dei-te a entender que ninguém tinha percebido. O teu corpo pareceu, finalmente, serenar. A alma, essa, é que continuou desarrumada na estante. Até hoje. Até quando?…