Uma primeira página assustadora!…

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Público, 30.10.2007
A primeira página da edição de hoje do Público é, toda ela, uma tapeçaria de siglas, supostamente de “serviços públicos” que poderão proceder, legalmente ou não, a escutas telefónicas. Uma dúvida ficou, porém, a pairar na minha mente inquieta e pecadora. O Público arrola na sua lista a GNR e uma tal Guarda Republicana, como se fossem entidades distintas. Ser escutado pela GNR não me preocupa muito, porque duvido que os escutadores percebam o que eu diga. Mas a Guarda Republicana não sei o que seja… e a ignorância deixa-me sempre em estado de pânico. Alguém me ajuda a descobrir o que é a Guarda Republicana?…

Improviso para antecipar Novembro…

Um dia depois
um ano depois
sim
vivemos todos à beira do precipício
de nós mesmos
saltar
só mesmo para fora
de uma porta
de uma janela
desse tempo breve de sair e voltar
uma vertigem apenas
um quase desmaio
um esquecimento entre memórias sempre voláteis
e o regresso inexorável
ao princípio de tudo
e às grades interiores
palavras calibradas pelo medo
de existir de outra maneira
um dia depois
um ano depois
sim
que dirás?

Ademar
29.10.2007

O poema que partilhei hoje com os meus alunos…

A arte de ser feliz
Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles

Entre toda a luz e algumas sombras – memórias de uma viagem interior (20)…

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Não há celas mais frias e sombrias do que as interiores. Quando te sentes prisioneira de ti mesma sentes-te prisioneira de uma espécie de maldição que, frequentemente, confundes com a evidência de um destino solitário universal. Mas só está só quem renuncia à verdade dos outros, desleixando a sua própria verdade. A tua luz é muito anterior à tua escuridão. Que te ilumines!…