Improviso no cais…

O eterno retorno
à condição original
esse barco sempre incerto
que se oferece à rebeldia das ondas
como se aspirasse sempre a dobrar os cabos
da boa esperança e da má
o impulso de todos os embarques e desembarques
a insustentável leveza dos seres
que nunca adormecem as noites
que partem quando deviam ficar
barcos que não regressam
porque nunca saem do cais
e atravessam os dias
e atravessam os meses
e atravessam os anos
e a partida é sempre a chegada
e a chegada uma partida
o tempo que não chegou a pertencer-nos
e a vida que parece sempre adiar-nos
o eterno retorno
à condição original
hoje o comboio desesperou por ti.

Ademar
31.10.2007

Sempre tarde ou demasiado cedo…

chego pelas horas de Cesariny
três, quatro, por aí
não é para ser feliz
é para que me vejas
assim e só
às quatro da tarde
pouco importa quem chega
pouco importa se te deixei feliz
desde as três
ou se fui eu
que fiquei
leio, apressada
os espaços por entre os versos
importa-me mais estar nua
caso nos queiramos amar
dispo ontem de uma só vez
e não tenho frio
são quase as quatro da tarde
chegas, como um homem
arrumo Cesariny
visto-me
leio-te
ainda não bateram as quatro
mas é quase tarde
Ana Saraiva

Entre toda a luz e algumas sombras – memórias de uma viagem interior (22)…

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Há quem nunca ganhe ou perca no jogo das solidões. Há quem tenha as cartas viciadas, mas nunca vá a jogo. É que este jogo dói a jogar e ninguém, verdadeiramente, está preparado para perder ou para ganhar. Sobra sempre, claro, o silêncio do jogador suicida. O silêncio e a espera e a dúvida: a ambiguidade. E o medo: esse medo antigo e quase primário da janela aberta. Das asas que batem e, finalmente, podem ousar…

Improviso entre lados…

Um lado de ti
em que tudo é muito simples
duas agendas
duas disponibilidades
o encontro possível
entre poucas palavras
e a ilha depois
e o outro lado
em que nenhuma intensidade se desperdiça
duas vidas
e outras tantas exigências de perfeição
o encontro necessário
entre muitas palavras
e as montanhas depois.

Ademar
30.10.2007

Improviso fraternal…

Dá-me o braço
dá-me a mão direita
com que escreves
dá-me um pouco da tua coragem
pousa os dois cotovelos sobre a mesa
à distância certa do teclado
e apoia a vida neles
não haverá luto que te faça.

Ademar
30.10.2007

Entre toda a luz e algumas sombras – memórias de uma viagem interior (21)…

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A vítima que se faz de vítima é duplamente abominável: por ser vítima e, como se isso já não fosse bastante para inspirar a comiseração, por fazer-se de vítima. Não há carrasco que suporte, tranquilamente, um tamanho fardo. A ética impõe que a vítima se conforme com a sua condição. Quem não quer ser vítima não lhe veste a pele, não se põe a jeito. Ninguém suporta uma vítima rebelde. A vítima quer-se conformada, expectante e, se possível, agradecida. A vítima que resiste e estrebucha renega, estupidamente, o conforto e a grandeza de o ser. É uma vítima sem vocação, uma falsa vítima, uma vítima enganadora. A verdadeira vítima aceita, sem um queixume, sem um protesto, a punição do carrasco. E o seu natural ascendente. A natureza dos papéis exige de carrascos e vítimas que se entendam na bissectriz do jogo da dominação e da submissão. A vítima que se faz de vítima subverte esse jogo e renuncia à verdade do seu papel. Não merece, de facto, piedade?