Improviso quase perfeito…

Muitas palavras
Quase todas as frases
começam por
se
certo certo certo
só mesmo o que escreveste
nesse diário
que nunca ninguém lerá
as palavras que afogam
no teu silêncio antigo.

Ademar
31.05.2007

O mação vendado…

macon.jpg
Sábado, 31.05.2007
Uns pertencem ao Opus Dei; outros, às diversas tribos maçónicas. Uns usam o látego e o cilício; outros, a venda e o avental. Entre Sade e Sacher-Masoch, o diabo que escolha os acessórios…
Para que conste, sou orgulhosamente ateu e dispenso iniciações…

Simplex: psicanálise na hora…

psicaso.jpg
Visão, 31.05.2007
A Visão, segunda ela própria garante na capa da edição hoje posta à venda, “pediu aos mais conceituados psicanalistas portugueses que avaliassem a personalidade dos principais dirigentes nacionais” e (acrescenta) “o resultado é surpreendente”.
Espero que ninguém conte a Freud…

A volúpia do sofrimento…

papacasal.jpg
Por mais humanamente respeitável que seja o desespero do casal, a embriaguês de publicidade em que vivem parece ter-se já convertido numa espécie de volúpia de autocomiseração, alimentada e financiada generosamente por todos os voyeurs do sofrimento alheio. O verdadeiro e perverso negócio desta exaltação mediática dispensa a recuperação da miúda (viva ou morta): quase exige, pelo contrário, que ela permaneça eternamente desaparecida. O supremo bonzo dos católicos, como era de esperar, também quis cavalgar a volúpia e tirar partido do negócio. Tudo isto é um nojo, um imenso nojo. Pobre criança…

Greve, digo eu..

Sim, é um direito, constitucionalmente consagrado. Muitas vezes, quase, uma obrigação. Sabe-se que não serve para nada. Sabe-se que serve para tudo. Já houve um tempo neste país em que fazer greve podia valer a prisão. Hoje, o “castigo” é simplesmente financeiro. Quando não abre a porta a um despedimento a prazo. Mas o medo permanece. O medo e a inércia cívica. Sabe-se que não serve para nada. Sabe-se que serve para tudo. Mas entre o nada e o tudo… a dignidade acontece. A dignidade de quem ousa dizer não, quando é preciso…

Improviso em forma de rodapé…

Tranquilamente
o tempo de dizer
podes vir
e o olhar que te acompanha
na fuga
há quem se afogue em perguntas
há palavras que queimam no corpo
indeciso
e há sofreguidões
que embaraçam a tarde
afasto-me para perceber
como o silêncio dialoga com a intimidade
e quando regresso
procuro a boca abandonada
que finalmente corresponde
a transgressão aproxima
tenho agora a certeza
continuas a saber a mim.

Ademar
30.05.2007

Improviso em cima do balcão…

Não há precipícios
como os mais íntimos
esse mistério sobre que saltas
sem amarras nem algemas
apenas por que confias
na orientação dos ventos
abres o cofre dos teus segredos
numa tarde interminável
ainda não desceste do balcão da infância
ainda sentes nos braços
as mãos antigas que te agarram e projectam
o chão parecia então muito longe
às tuas pernas tão curtas
nesse tempo em que todos te imaginavam
tão próxima do céu.

Ademar
29.05.2007