Madrigais…

não é para te falar das palavras
que vim
é para te falar das coisas úteis
que até poderiam ser
o linho
que ampara o prazer
as flores
do mel que me darás a beber
coisas úteis, assim
como se fosse sem querer
mas não, trata-se de outras coisas
igualmente, até mais
úteis
o tempo, o tempo, o tempo, o tempo
como vês, não são palavras
o que me traz aqui
são minutos, estações, a eternidade
conta, abre as mãos, usa os dedos
e as comissuras entre eles
se te aplicares
ainda voltas de dentro do mistério das coisas
úteis, tão úteis, a tempo de deixar o vinho transbordar o copo

Ana Saraiva

Intolerável…

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Foto de José Ventura, publicada na edição de hoje do Expresso
A Madeira deixou de ser um caso de política para passar a ser um caso de… polícia. Isto vai acabar mal, muito mal…

Sim, senhor ministro…

O ministro da agricultura faz tudo o que pode para seduzir os agricultores. Hoje, falando para o país real através da RTP1, disse “póssamos” e logo a seguir “fáçamos”. Não retive as lágrimas. Há gente que não conhece limites no afã de servir a pátria(zinha). Iletrada, como diria Alexandre O’Neill

Principezinhos suicidas…

em qualquer planície fazemos canto
somos a parede e as mãos
a arma e o pelotão
e o morrer
uma bela planície de trigos
e flores
e nunca mais a poderemos ver
fazemos canto nela
e mesmo deitados
não há nada para ver
só o teu rio que corre
em mim estreito

Ana Saraiva

Desoras…

não sei se a mão tremia de igual modo
no desenho cuidadoso das palavras finais
mas quando se tem apenas
um frasco de tinta
uma pena
uma luz
que mal interrompe a noite
os dedos aprendem
e poupam incertezas
pelos vindouros
haverá histórias outras
luxuosamente indecisas
sem fim à vista
sem meio e talvez
sem início
tão longa será a vida

Ana Saraiva

José Afonso: o amor que nunca se enganou…

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Hoje, vinte anos passados sobre a sua morte, só ouvirei José Afonso. E recordarei a última conversa breve que tivemos, em Guimarães. Lembras-te, Zeca? O amor nunca te enganou…
Que amor não me engana
Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira
Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera
Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia
José Afonso

Cirurgia do silêncio…

O silêncio pode ser um ponto de interrogação. Ou de exclamação. O silêncio pode gritar. O silêncio pode gemer. O silêncio pode ter toda uma gramática dentro dele. Ou a poesia toda de um Álvaro de Campos. O silêncio pode desafiar a noite como se fosse a sua pele. O silêncio pode ser íntimo do universo. O silêncio sobre a água. O silêncio de uma sonata. O silêncio do fogo. O silêncio que voa ou que rasteja. O silêncio que abre portas e janelas para eu entrar. O silêncio que sorri no teu rosto e que te percorre. O silêncio que me convida a escrever. O silêncio que te viaja. O silêncio que me espera…