Céus ambulatórios…

desço em direcção ao rio
e levo-lhe água
entro com traços de céu nos bolsos
que as memórias não são pedras
e os versos calam
em presença da sede
tão recente
bebo-lhe a fonte
sirvo-me abundantemente
volto-me mas encontro-te
e envolves-me
nesse manto de água
agora longo e pesado
não voltarei a ver o céu
ainda bem que o trouxe
descuidado
nos bolsos

Ana Saraiva

Salve, castíssimo Cardeal: os eunucos te saúdam!…

Cito José Policarpo (não trato ninguém por Dom):
“Em termos religiosos ou simplesmente culturais, não haverá verdadeira educação sexual se não abrir para a perspectiva da castidade, concebida como vivência generosa e responsável da própria sexualidade. “
Em que século viverá este senhor José? Treze? Catorze? Quinze? O Código Canónico da Igreja dita Católica não interditará a autistas o exercício do múnus pastoral? Um pastor cego só poderá conduzir o rebanho ao abismo…

Pinho, Pinho, por que tanto porfiais?…

Manuel Pinho, que passa por ministro da economia, tem a palavra fácil. Na semana passada, ouvi-o dizer que a economia portuguesa tinha dificuldade em atrair o investimento estrangeiro por causa dos elevados custos da nossa mão-de-obra. Agora, na China, ouvi-o dizer rigorosamente o contrário. Já não dá para rir, nem para chorar. Trapaça por trapaça, prefiro as patranhas históricas de José Hermano Saraiva…
Depois admiram-se que o zé povinho associe os políticos à escória…

Por que não abrir solenemente o “ano judicial” no… carnaval?…

O chamado “ano judicial” abre, solenemente, hoje, dia 31 de Janeiro, com a habitual cerimónia que junta, para o fraque e a retórica acaciana, os principais dignitários da coisa. Ninguém, no país, liga patavina a estes salamaleques cultuais, senão os suspeitos do costume. Mas não deixa de ser, simbolicamente, elucidativo que a abertura solene do novo “ano judicial” ocorra no último dia do mês de Janeiro. Eu, no lugar dos promotores, retardaria ligeiramente a cerimónia, para a fazer coincidir com o carnaval.

Será uma maldição salazarenta?…

santac.jpg
Primeiro, um “serial killer”; agora, conta hoje o 24horas, um violador de pinhal. Santa Comba Dão, pelos vistos, não se recomenda nos tempos que correm à segurança das mulheres. Será consequência de uma espécie de maldição salazarenta, que se abateu, inesperadamente, sobre Santa Comba Dão, o berço do ditador? A refinada misoginia de Salazar ter-se-á apossado agora, numa versão psicopata, de alguns dos seus conterrâneos? Santa Comba Dão promete tornar-se num “case study” de patologia social…

Morangos com açúcar…

Curtir, andar, namorar?
Hoje, os meus alunos explicaram-me as diferenças entre curtir, andar e namorar. Não sei se percebi…
Curtir é? por um dia (ou umas horas). Pode envolver a máxima intimidade. Ou não. Digo: pode envolver sexo ou só beijinhos. Só?… No dia seguinte, não há lastro. O envolvimento erótico é? circunstancial. Ninguém está à espera de? prolongamento ou compromisso. Curtir é? curtir. Ponto final em vez de reticências.
As férias, dizem, são óptimas para curtir. Entenda-se: são uma? curtição.
Andar? é um estado intermédio entre curtir e namorar. Normalmente, dura alguns dias ou breves semanas. Já não é para curtir: é para testar a possibilidade do? compromisso.
Se pega, resulta em namoro. Se não pega, regressa-se à base e tenta-se com outro ou com outra. E, entretanto, continua-se a curtir. Ponto final.
Namorar? é assunto sério. Implica compromisso. De exclusividade e de fidelidade. E? respeito. Curtição? controlada. Pode durar semanas ou meses. Em situações excepcionais, pode até durar um ano ou dois.
Poderá um cota entender estas? subtilezas?
Esqueci-me de lhes dizer que é assim desde o princípio da criação?

Gargantas pouco fundas…

garg.jpg
24horas, 30.01.2007
Pinto da Costa mostrou-se indignado e, desta vez, terei de lhe dar razão. Eu, no lugar dele, também teria ficado. Como é que a comunicação social, em peso, soube que ele iria ontem à PJ prestar declarações, onde e a que horas? Eu vi, nas televisões, Pinto da Costa, à saída da PJ, rodeado e atacado por um verdadeiro enxame de repórteres. Quem os avisara? Não acredito que tivesse sido ele. A informação saiu, quase de certeza, da PJ ou do Ministério Público. Num país decente, o responsável pela fuga de informação teria de responder por ela e sujeitar-se às consequências. Mas toda a gente sabe que Portugal não é um país que se recomende à decência. Vale tudo…