Fados…

resgatados, todos
a tempo de serem velados
que a morte é um corpo inerte
e a vida uma garganta rouca de dor
havia um marinheiro com o nome de António.

Ana Saraiva

Susana Baca…

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Já falei aqui, em tempos, do meu enamoramento pela cantora peruana Susana Baca. Chegou-me hoje pela posta restante (obrigado, Ana!) o último cd dela, Travesias (ela já não gravava desde 2001). Não tenho palavras para dizer do fascínio, para contar do doce feitiço. Ouvi, se puderdes…

Referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez – um testemunho que todos deveriam ler e meditar…

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“As mulheres que pedem o aborto fazem-no sempre a chorar. E, em geral, a razão que apresentam não é egoísta, pelo contrário. Dizem: “Não sou capaz de criar um filho em boas condições”.
Recomendo a todos a leitura desta entrevista que a Visão publica na edição desta semana. Se todos os eleitores portugueses meditassem sem preconceitos religiosos o depoimento de Elisabeth Aubény, médica ginecologista e obstretra francesa, estou certo de que o SIM, no próximo referendo, ganharia por unanimidade.
Permiti que reformule a pergunta a que teremos de responder: concorda que uma mulher que decida abortar até às dez semanas deve ser levada a tribunal e, eventualmente, condenada a uma pena de prisão?
Se houver um único português que responda SIM a esta pergunta – considerá-lo-ei, simplesmente, um canalha!
Alguém avança e dá a cara?…

Em-baraços…

já se foram todos
só tu ficaste parada em mim
até os que ficam depois dos últimos
já partiram
que fazes aí?
não vês que a música se calou?
todos já regressaram
todos têm morada
que fazes ainda aí?
a noite virá e a poeira não serve de manto
terás fome que nenhuma sobra matará
porque me olhas?
não sou água nem pão nem abrigo
já esvaziei todas as minhas veias de milagres
e saio dos sonhos alheios pelo meu próprio pé
fica. afinal, que importa o lugar?

Ana Saraiva

Diário em forma de silêncio (83)…

Os homens, em geral, desconhecem essa evidência de séculos: as mulheres trocam quase tudo (até a sua própria liberdade) por segurança. Não digo, necessariamente, segurança familiar, económica ou de estatuto social; digo segurança, simplesmente. Terra firme e previsível, cais certo para todos os regressos. A paixão dura pouco, o amor tem dias, só a confiança é eterna. As mulheres aspiram a entregar-se a quem as segure, prenda e amarre. A metáfora é muito mais real dos que as realidades de ficção que costumam passar por verdades de género.
C.A.