A “Senhora” deles…

ridiculo.jpg

Entrevistam-se uns aos outros, genuflectem-se, admiram-se (nos intervalos da intrigalhada e da sacanice). O jornalismo queque à moda de Lisboa e de Cascais é um permanente convite à gargalhada. Maria João Avillez é o expoente máximo da gelatina nacional. Hoje, a Notícias Sábado entrevista a “entrevistadora da nação”. Escreveram mal o substantivo: eu preferiria a versão “entrevistadeira”. Há vinte e tal anos que vomito, compulsivamente, a “Nossa Senhora”, digo, a Senhora deles…

Portugueses que eu admiro (3)… *

sizav.jpg
Há portugueses assim: que não precisam de mais de quatro letras para se destacarem do rebanho. S de Sentido (ou de sentidos), I de inteligência, Z de zénite e A de Arquitectura. SIZA: Siza Vieira. Tenho por ele e pela sua obra uma admiração infinda. Felizmente, não sou só eu. Siza é um dos ?príncipes? da arquitectura mundial. E um dos melhores de nós. E dos mais discretos. A grandeza abomina a montra…
* Fotografia de António Pedro Ferreira, publicada no Expresso-Revista (16.Maio.1998)

Quase miudezas…

a miúda perguntou à mãe
se senhoras acima dos 50
mas senhoras a sério!
também podiam ter sida
que não, que ideia maluca!
e o pai, por onde anda
na vida dele
só dele
nossa também
a miúda perguntou à mãe
se o pai ainda a beijava
que não, que ideia maluca!
mas procurava-a ainda
e isso tinha de ser
um dia ela iria entender
de que morrem as mulheres
e tu morres mãe
esqueci-me de mim há muito
isso é morrer
as mulheres morrem meninas
morrem de pé e sozinhas
eu não quero morrer, mãe
põe aí a cruzinha, diz que sim
que senhoras, meninas e putas
têm todas os olhos fechados
quando dizem que sim
Ana Saraiva

Improviso para dizer a raridade…

Não sei como me perca nas tuas palavras
antes delas
perder-me-ei sempre nos lábios que te silenciam
essa boca que instintivamente me viaja noutras condições
menos retóricas
e que me transporta ao universo aquém do teu corpo
a raridade de todos os alvos
que em ti espreitam e desafiam o desejo especular
o teu mapa reservado
tratado de anatomia impublicável
e as mãos que te folheiam
as únicas aliás que até hoje
não tropeçaram as páginas inumeradas.
Ademar
02.12.2006

Jogo de azares…

eu não sou tu
e também não sou eu
hoje ainda menos me sou
que me deitei a perder como dados
e ganharam o jogo, depois de ter durado
para o declararem acabado
saio na açucena da mulher de cabelo preto
é injusta a vida que assim distribui a beleza
e o tempo de a prender
o orvalho é velho, cheira a sótão e a segredos
dispo o vestido e piso as folhas com os pés nus
são os poemas de alguém que se perdeu a olhar por uma janela
sei-os como o sangue que me percorre quando chega Março
abro os olhos para ver
e lá vai a açucena pelo ano de uma graça imensa
presa em mim
Ana Saraiva

Improviso sobre nenhumas vestes…

O meu desejo perdeu as vestes
está nu neste inverno de dentro
treme de frio quase enregela
todas as correntes o levam
todas as correntes o trazem
e não há sofrimento que o distraia
o meu desejo não tem
encontro marcado com a morte
confunde-se com ela.
Ademar
29.11.2006