Para as Sete *

que brevemente irão deliciar
as mãos que já sentem o peso doce
das pedras imortais
pequenas por lei humana
que o prazer demore
é justo e bom
bem apertadas, as pedras
animam-se
como ventres prontos a parir
e no gozo supremo da antecipação
as sete noviças
gozam o prazer milenar
de purificar a culpa do mundo
irão
perder-se na vertigem
desse bondage último
a dádiva pública
do corpo apertado na terra
e da cabeça rodeada de ódio
tão real que parece ficção
o cordeiro não tira o pecado do mundo
a mulher é o pecado do mundo
do mundo
sentado em cima da terra relativa
irão
totalmente submissas
para a última iniciação
gozemos, meus irmãos!

Ana Saraiva
*Parisa, Iran, Khayrieh, Shamameh, Kobra, Soghra e Fatemeh, sete mulheres condenadas à morte por lapidação.

Diário em forma de silêncio (66)…

Repito imagens. Imagens com cheiro. Continuo a cheirar-te, quando te vejo e reconheço em mim. Talvez fosse suposto que te esquecesse. Que te apagasse. Seria esquecer e apagar uma parte de mim. E as mulheres não se destroem assim. O tempo não passa por elas, não passa por nós, não passa por mim. O passado foi sempre ontem e ontem? é quase hoje. Continua a ser-nos. Continua a ser-me. Nunca aprenderei a conjugar os advérbios de tempo. Nunca saberei dizer que morreste. Que talvez tenhas morrido.
C.A.