Os poetas nunca morrem: em todas as ruas te hei-de encontrar, em todas as ruas te hei-de perder…

mario-cesariny.jpgEm todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Mário Cesariny (1923-2006)

Improviso sobre mulheres…

Nunca as mulheres se completam
nascem umas das outras
umas nas outras
e as mãos quase inertes dos homens
passam sempre ao lado delas
nunca chegam a tocá-las
as mulheres não respiram
elas próprias são
atmosferas impartilháveis.

Ademar
26.11.2006

Quem quiser penetrar o mundo do poeta, tem de abdicar do seu próprio mundo…

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A poesia é a terceira margem do rio de cada um. Para quem nela se descobre e se desvenda não há mais retrono possível – a poesia gruda-se à pele interior da alma, projectando-a para a grande viagem em direcção a uma identidade e a um destino. O poeta é, por isso, um ser único e o universo todo. Singular, ele só se reconhece no plural de si próprio, de todos os sentidos que o denunciam. O poeta é o criador de um mundo à sua medida. E não tem outro. Quem quiser penetrar o mundo do poeta, tem de abdicar do seu próprio mundo.

Há uma compreensão primordial da vida que a natureza só consente às crianças – e aos poetas…

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A mão que embala o berço do poeta. A criança aprende a falar (e a ouvir, e a cheirar, e a tocar, e a ver…) sem que ninguém a ensine. Aprende a adivinhar o mundo e a percebê-lo pelos seus próprios sentidos. Há uma compreensão primordial da vida que a natureza só consente às crianças – e aos poetas. Por isso é que não há escolas de crianças, nem escolas de poetas.

Fazer de cada criança um artesão do imaginário…

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Na oficina mágica das palavras (da leitura e da escrita) fazer de cada criança um artesão do imaginário – eis a divisa que deveria estar inscrita na alma de todas as escolas. Na oficina mágica das palavras, cada criança tem o seu tempo e a sua medida de ser poeta. E a sua recompensa: o lento reconhecimento dos limites do seu mundo e a consciência de que esses limites podem ser a ponte para outros mundos…

Poeta como domador dos mistérios da vida…

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A poesia é uma permanente recriação do eu e uma permanente reinvenção do mundo. O poeta é, por isso, o grande domador dos mistérios da vida. Ele é o verdadeiro filósofo, o verdadeiro terapeuta, o verdadeiro educador, o primeiro dos artistas e o primeiro dos sábios. Quem domina os instrumentos da expressão poética está mais próximo da eternidade. A poesia está rigorosamente nos antípodas da morte. É a vida no seu máximo esplendor…

Brinca comigo, apossa-te de mim, faz-te transportar nas asas que te empresto…

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Antes do texto, são as palavras e antes das palavras, o corpo que as exige. Não há brinquedo com uma maior carga erotizante do que as palavras. Quem aprende a brincar com elas ? aprende a brincar consigo, num jogo de permanente descoberta que o poderá introduzir ao conhecimento do mais fundo, reservado e misterioso da sua alma. O texto que vale a pena é sempre um convite a essa viagem. É o texto que se faz desejar, dizendo, ao leitor, simplesmente ? brinca comigo, apossa-te de mim, faz-te transportar nas asas que te empresto.

A poesia morre na praia da escola…

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Cada sala de aula é uma morgue, as crianças trabalham sobre cadáveres. Antes da autópsia, é necessário acabar de vez com os ainda moribundos. A escola acredita que, à vista das entranhas dos corpos retalhados, as crianças ganharão amor aos cadáveres, identificar-se-ão com eles, desejarão partilhar o seu destino. A poesia morre na praia da escola, quando a criança é chamada a empunhar o bisturi dos gramáticos e dos linguistas para a estocada final.