Antologia poética (140)…

Improviso sobre o teu silêncio…
Do teu silêncio sobre as nuvens
não sei se espere o grito da descoberta
ou o tranquilo acolhimento
sei apenas que viajo com os teus olhos
e vou sempre à frente
esperando-te algures no passado
entre palavras
talvez todas as palavras
que um dia iluminaram a tua ausência.
Ademar
27.12.2005
publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (139)…

Improviso terapêutico…
Sofres do embaraço do adjectivo
não escorres das palavras
com a mesma leveza
diria o mesmo rigor
como escorres do corpo
quando te esqueces
sobra-te pensamento para as algemas
a alma respira-te
asfixiada na garganta.
Ademar
28.12.2005
publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (138)…

Improviso sobre o esquecimento…
Frequentes vezes
finjo esquecer-me de mim
evado-me do corpo
e deambulo pelas suas margens
entre palavras e imagens
que já não me pertencem
provavelmente
perder-me-ei assim
desencontro-me sempre
do destino do regresso.
Ademar
29.12.2005
publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Um país extraordinário (continuação eterna)…

Imagine-se uma instituição pública, fundada e mantida com dinheiro de todos nós.
A criatura que preside à instituição (um sujeito medíocre que, desde a juventude, vive da política e do tráfico de influências) arranja maneira de empregar confrades, correligionários, parentes e amigas mais ou menos íntimas, que vai colocando em lugares estratégicos para melhor controlar o funcionamento da coisa. Todos pagos, naturalmente, muito acima dos seus méritos e das suas habilitações.
Um certo dia, não há veniagas eternas, a criatura é corrida (transferindo-se, tranquilamente, para outras “instituições”). Mas os confrades, correligionários, parentes e amigas mais ou menos íntimas a que tinha dado emprego – mantêm o lugar e as correspondentes mordomias.
Portugal é assim e, verdadeiramente, não há quem lhe queira dar a volta. O “centralão” que, há muitos anos, nos governa vai garantindo a perpetuação mais ou mais pacífica do sistema, assente no nepotismo e na lei do compadrio.
Julgais que me refiro a uma instituição imaginária? Não, refiro-me a uma instituição concreta, de resto, muito badalada, actualmente, na comunicação social. A criatura tem nome e devia estar na cadeia, mas não há-de tardar muito que o vejamos no governo. Só as maiorias conjunturais é que mudam…

Dezembro.2005
recuperado de abnoxio2.blogs.sapo.pt