Opus Dei…

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Sobre a Opus Dei, escrevia, em 1967, o seu fundador, Josemaria Escrivá de Balaguer:
“Somos uma pequena percentagem de sacerdotes, que exerceram antes uma profissão laical; um grande número de sacerdotes seculares de muitas dioceses do mundo (…); uma multidão de homens e mulheres – de várias nacionalidades, línguas e raças – que vivem do seu trabalho profissional, casados a maior parte, alguns solteiros, que participam com os seus concidadãos do dever grave de tornar mais humana e mais justa a sociedade temporal.”
Salvo raríssimas perversões, não há instituição eclesial, política, social, cultural ou de qualquer outra natureza que não se proponha e não ostente os mais elevados propósitos civilizacionais. A Opus Dei não é excepção. Os seus membros aspiram, aliás modestamente, à santidade quotidiana. “O apostolado essencial da Opus Dei (escrevia ainda o seu fundador) é o que cada sócio realiza individualmente no lugar em que trabalha, com a sua família, entre os seus amigos. Uma actividade que não chama a atenção, que não é fácil de traduzir em estatísticas, mas que produz frutos de santidade em milhares de almas, que vão seguindo Cristo, silenciosa e eficazmente, no meio da actividade profissional de todos os dias.
Seria esta, talvez, a ambição genuína de Escrivá de Balaguer, que o franquismo e o ultramontanismo católico alimentaram, mas a Opus Dei que hoje conhecemos é uma coisa diversa, uma espécie de seita (mais ou menos secreta) que, através do mutualismo da influência e do compadrio, procura colocar os seus “servos” em posições estratégicas de domínio económico e social, para daí tirar vantagens políticas e catequéticas.
Raramente, os servidores da Opus Dei reconhecem, publicamente, a sua condição. Frequentam ou partilham discretamente as mesmas casas (algumas da própria seita), reúnem-se periodicamente, protegem-se, apoiam-se. Organizam-se e funcionam numa lógica de sociedade secreta, um pouco à imagem e semelhança das lojas maçónicas.
Aprendi com o tempo a identificar a espécie. Em geral, os servidores da Opus Dei têm uma vida muito reservada e esquiva, pouco dada a mundanices e exibições sociais. É muito pouco provável, por isso, que encontremos “militantes” da Obra nas revistas cor-de-rosa. Quando ocupam posições de algum destaque, dentro ou fora do Estado, é certo e sabido que hão-de procurar empregar e promover os “seus”, reforçando assim o seu poder. Conheço algumas teias da Opus Dei e sei muito bem do que elas, grupalmente, são capazes…
Há uma forma relativamente simples de detectar a presença de um seguidor de Escrivá de Balaguer. Quando o leitor tiver dificuldade em perceber como é que alguém que não se distingue pela inteligência, nem pela competência profissional, conseguiu ascender ao exercício de um cargo de alguma relevância, o mais provável é que esteja perante um membro da Opus Dei.
Já conheci um ministro da educação (não vou dizer o nome) completamente destituído para a função. Só percebi por que chegara a ministro quando descobri que era membro da Opus Dei. Já conheci uma directora de serviço que só fazia disparates e se manteve, impunemente, no exercício do cargo durante vários anos. Vim depois a saber que era da Opus Dei.
Hoje, já nem concedo o benefício da dúvida. Quando vejo no governo ou na administração, pública ou privada, um incompetente poderoso e aparentemente inamovível, já sei que é da Opus Dei.
Vá por mim…
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O olhar no lugar da ausência…

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Gosto, especialmente, deste óleo sobre tela de “Dante” Gabriel Rossetti (1828-1882): The Day Dream (1880). Há, nele, uma intensidade que prende o olhar, uma quase perfeição de traços e tonalidades. A mulher confunde-se, magicamente, com a natureza e a natureza confunde-se, magicamente, com a mulher. Não conheço a poesia de Rossetti, mas este quadro convida a uma fulgurância de metáforas. Se tivesse de o rimar com um trecho musical, rimá-lo-ia talvez com o Adagio em Si menor (K 540), de Mozart. Fazei a experiência e vereis. Esta mulher não merece menos…
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Coragem…

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Há muitos anos que me venho insurgindo contra a presença de símbolos religiosos nas escolas públicas portuguesas. Já vi de tudo, para além dos tenebrosos crucifixos – inclusivamente, altares à Senhora de Fátima e a outras santinhas, com muitas velinhas em volta, que diariamente os alunos tinham a obrigação de iluminar. No Portugal rural e arcaico, ainda há muitas escolas públicas que não passam de sucursais da igreja paroquial mais próxima.
De acordo com uma informação veiculada ontem pelo DN, parece que a Direcção Regional de Educação do Norte decidiu, finalmente, fazer cumprir a Constituição, ordenando a retirada dos símbolos religiosos das escolas. Mais vale tarde do que nunca…
Claro que, na maior parte dos casos, os símbolos religiosos permanecerão nas escolas, porque os professores e os pais, incentivados pela padralhada, não acatarão a instrução ministerial. Tem sido sempre assim e continuará a ser. E o Ministério não reagirá, porque não quer comprar uma guerra religiosa com as “populações”. Para o bem e para o mal, estamos em Portugal.
Mas releve-se, pelo menos, a coragem de quem assinou os ofícios clarificadores…

Novembro.2005
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Não dispareis sobre o pianista adolescente!…

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Domingos António será um pianista promissor. Pianistas promissores é o que há mais no planeta (até em Portugal). E ainda bem. Antes pianista do que vigarista…
Mas pianistas geniais, compositores ou não, são raros. Liszt, Chopin e Rachmaninoff, segundo todos os relatos, pertenceram à espécie. Rubinstein, Paderewski, Horowitz e Richter, também…
Dos vivos, prefiro não falar…
Domingos António supõe-se, narcisicamente, um predestinado. Ouvi-o hoje no “Pessoal e Transmissível”, da FSF, não ao piano, mas ao blá-blá, e vomitei a presunção. O rapazinho devia ter um agente ou um tutor que o vetasse ao falatório, ainda por cima, numa língua que ele mal domina. Assaz modestamente, ele acha-se um “artista” genial e não tem dúvidas de que os terráqueos lhe estenderão, rapidamente, um tapete para a eternidade. Nasceu e viveu nos States, mas não tem saudades. Estudou na Rússia, mas abomina a Rússia e jura que jamais voltará. Vive em Portugal, um “país em desagregação”, diz ele, e sonha emigrar para Espanha ou para parte nenhuma, onde, talvez, o façam príncipe ou rei.
Até pode ser que a genialidade lhe tenha batido à porta. Mas podia fazer um pouco mais por ela, antes de condenar às trevas os contemporâneos e passar tão diligentemente por idiota. É que há presunções nascidas no umbigo que piscam o olho ao diagnóstico da esquizofrenia…
E nem todos os esquizofrénicos alcançam, ao piano, a eternidade…

Novembro.2005
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Antologia poética (130)…

Improviso helénico…
De nós não sobra o que vemos
que os olhos velozes
não nos encomendam à eternidade
de nós sobram-nos apenas
as incertezas do que projectamos.
Ademar
28.11.2005
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Antologia poética (129)…

Improviso sobre as lágrimas de Marc Zoro… *
Olha-me bem na pele
sou da mesma cor de todos os olhos
eles é que não ouvem.
Ademar
29.11.2005
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* Jogava-se o Messina-Inter. Aos 65 minutos, o jogador costa-marfinense do Messina, Marc Zoro, farto de ser insultado e humilhado por adeptos do Inter, pega na bola e faz menção de abandonar o campo. Colegas das duas equipas acarinham-no e tentam demovê-lo. A fronteira entre a civilização e a barbárie continua a ser uma linha muito ténue na consciência e no carácter de todos nós. Não há lugar a distracções…

Direitos…

Os terroristas, toda a gente sabe, não têm direitos.
Por que não encarcerá-los, torturá-los e até matá-los discretamente?
Os noviços, todos as patentes sabem, não têm direitos.
Por que não praxá-los e humilhá-los?
Os pretos, todos os brancos sabem, não têm direitos.
Por que não insultá-los e espezinhá-los?
O poder alimenta-se de ser exercido.
A violência consagra-o.

Novembro.2005
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Antologia poética (128)…

Improviso sobre a impotência interior dos políticos…
A poesia
é a liturgia menos narcísica do eu
os políticos são poetas infinitamente frustrados
falam para fora simplesmente
porque o espelho lhes recusa o diálogo interior
quem tem palavras para se dizer
não precisa de auditórios.
Ademar
29.11.2005
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Tributo a Piazzolla…

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Hoje regressei a Piazzolla, não ao bandoneon, mas ao violino de Piazzolla. A primeira vez, ainda criança ou adolescente, que contactei com o tango… foi pela voz de Carlos Gardel, que o meu pai ouvia solitariamente noites a fio, transportando-se não sei a que misteriosos passados. Nunca, nessa época, imaginei que o tango se dançasse – descobri-o muito mais tarde. O tango sempre foi para mim uma espécie de fado estranho ou estrangeiro. Desconhecia então que seriam vagamente primos…
Piazzolla reconciliou-me com o tango. Ninguém, até hoje, conseguiu reconciliar-me com o fado. Há uma parte de Portugal que eu sinto que não me pertence, que não me respeita…

Outubro.2005
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