Antologia poética (4)…

Improviso sobre uma imagem…

Aprender as mãos e os ouvidos
aprender o gesto e o corpo
aprender os cheiros e os sabores
aprender o silêncio
aprender o movimento
aprender os sentidos do olhar
e voltar sempre ao princípio de tudo.

Ademar
Setembro.2004
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Memória de tempos castos… *

Em Setembro de 1923, o general sedicioso Miguel Primo de Rivera (pai de José António, o futuro fundador da Falange, de tão infausta memória) usurpa o poder em Espanha e converte-se numa espécie de Mussolini ibérico (“nickname”, aliás, com que o rei Afonso XIII, em privado, o mimosearia). Como é sabido, o exemplo de Primo de Rivera transpirou a fronteira e chegou, rapidamente, a Portugal, inspirando os golpistas do 28 de Maio à moda de Braga.
Em Setembro de 1923 (ele há coincidências…), as professoras primárias de Cuenca (Castilla La Mancha) assumiam, contratualmente, o seguinte compromisso “profissional”…
Contrato de maestras – 1923
Este es un acuerdo entre la señorita ……………….., maestra, y el Consejo de Educación de la Escuela ……………….. por la cual la señorita ……………….. acuerda impartir clases por un periodo de ocho meses a partir del ……………….. de septiembre de 1923. El Consejo de Educación acuerda pagar a la señorita ……………….. la cantidad de (*75) mensuales.
La señorita ……………….. acuerda:
1.- No casarse. Este contrato queda automáticamente anulado y sin efecto si la maestra se casa.
2.- No andar en compañía de hombres.
3.- Estar en su casa entre las 8:00 de la tarde y las 6:00 de la mañana, a menos que sea atender en función escolar.
4.- No pasearse por heladerías del centro de la ciudad.
5.- No abandonar la ciudad bajo ningún concepto sin permiso del presidente del Consejo de Delegados.
6.- No fumar cigarrillos. Este contrato quedará automáticamente anulado y sin efecto si se encontrara a la maestra fumando.
7.- No beber cerveza, vino ni whisky. Este contrato quedará automáticamente anulado y sin efecto si se encuentra a la maestra bebiendo cerveza, vino o whisky.
8.- No viajar en coche o automóvil con ningún hombre excepto su hermano o su padre.
9.- No vestir ropas de colores brillantes.
10.- No teñirse el pelo.
11-. Usar al menos dos enaguas.
12.- No usar vestidos que quedes a más de cinco centímetros por encima de los tobillos.
13.- Mantener limpia el aula.
a) Barrer el suelo al menos una vez al día.
b) Fregar el suelo del aula al menos una vez a la semana con agua caliente.
c) Limpiar la pizarra al menos una vez al día.
d) Encender el fuego a las 7:00, de modo que la habitación esté caliente a las 8:00, cuando lleguen los niños.
14.- No usar polvos faciales, no maquillarse ni pintarse los labios.
* Agradeço ao A.R. a sugestão deste “post”. A propósito, convirá lembrar que, durante o salazarismo, as professoras primárias portuguesas assumiam um compromisso “profissional” muito semelhante ao exposto.

Diário em forma de silêncio (35)…

A fronteira da neurose, em mim, como sabes, é muito ténue. Que procurei nos homens a que me confiei? A confirmação (a pergunta, de ressonâncias psicanalíticas, quase me repugna) do lado destrutivo do impulso erótico? Percebi, por eles, que era diferente das outras. Era-me estranho o pudor, esse pudor que as mulheres, pelos vistos, cultivam, como ingrediente talvez de sedução. Eu nunca soube de culpas ou estratégias defensivas de género. Há uma mulher em mim que, provavelmente, nunca o foi. Talvez o isolamento (ou algum abuso precoce, que continuo a recalcar) me tenha, de facto, conduzido à desaprendizagem do pudor. Acompanhei-te em tudo. Acompanhei-vos em tudo. E, se não fui mais longe… foi, apenas, porque as sombras projectadas no interior de nós (há um terriório comum em que habitamos) delineavam uma fronteira invisível que não estaríamos e, provavelmente, jamais estaremos em condição de ultrapassar. Talvez Freud, afinal, tivesse razão…
C.A.

Antologia poética (2)…

Poema ao estilo de Serge Gainsbourg…

Nunca disse je-teme
(assim mesmo, à portuguesa)
Preferi sempre a linguagem gestual
que não consente tradutor
(antes de me especializar em braille).

Ademar
11.08.2004
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (1)…

Escrito sobre o Adagietto da 5ª Sinfonia de Malher
(interpretado por The Uri Caine Ensemble)

Estou delicadamente construído sobre uma rede de canais
De todas as margens que hesito
saem pontes que me projectam para os outros lados de mim
Distraio-me
para perder sempre
a última carreira do vaporetto.

Ademar
22.06.2004
(publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt)

Um filme que recomendo…

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No título original, “Prendimi l’Anima”. Em português, “A Complexidade da Alma”. Um filme de Roberto Faenza, sobre um argumento de Gianni Arduini. Para amantes e curiosos da psicanálise. Sabina Spielrein foi paciente, depois amante e, mais tarde, discípula de Jung. Judia russa, morreu (com a filha Renata) às mãos dos nazis, em 1942. Nos primórdios da revolução, fundara em Moscovo uma escola libertária, a Escola Branca, que chegou a ser frequentada, discretamente, por um dos filhos de Estaline. Escola que, mais tarde, o próprio Estaline mandaria encerrarr. O filme de Faenza não é, propriamente, uma obra prima, mas vale pela história que retira da penumbra do esquecimento. Sabina, como Salomé, foi uma mulher extraordinária, uma das primeiras baluartes da psicanálise. Inclino-me, comovido, perante a memória do seu exemplo de coragem e de ousadia.

Dicionário das palavras que eu amo (36)…

PRELIMINAR – Tenho uma relação erótica com as palavras (com o resto, naturalmente, também). Uma das muitas palavras que me excitam não tem género. Refiro-me ao adjectivo PRELIMINAR. Limen, liminis: a soleira da porta. Algum conhecimento do latim ajuda a estas divagações. PRELIMINAR é, digamos, tudo o que antecede o passo de franquer a soleira da porta, para entrar. Não basta, pois, a intenção: o PRELIMINAR supõe a acção intencional, dirigida claramente ao objectivo. Quer-se chegar à porta e franqueá-la, mas o caminho para lá chegar é tão ou mais importante que o acto da própria chegada. Muitas vezes, o caminho não é uma recta linear, mas quase um labirinto.
Quem ignora a matriz identitária das palavras e dos conceitos que as palavras invocam – ignora, porventura, o essencial. Os PRELIMINARes, digo eu, são o supra-sumo da própria vida. No sexo e em tudo o mais que vale a pena.
(Recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt)