Frases…

Vamo-nos embriagando com frases, mais ou menos feitas (ou refeitas). O problema é que nós já existíamos antes das frases e existiremos sempre (enquanto existirmos) depois delas…
Frequentemente, as frases distraem-nos da vida…
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Além rio…

rio? está bem,
deixa-te ser mar
importa nada todas as correntes
e todos os cadáveres jovens que trago
uma profundidade enganadora
de espelho que dança tudo o que vê
serás sempre o destino do meu nascimento
depois, quando já nada se distingue,
é isso a morte?
não haver margens
em sítios com nome
não poder extravasar
e tocar mais mundo
para depois voltar
é isso a morte,
ser impossivelmente mais
do que comporto?
Ana Saraiva

Contrartes…

deixa escorregar a roupa e mostra os pulsos nus
corre neles o ímpeto que não deixa dormir
recebem os lábios
que pousam
perdidos
água que lambe a sede
pão que enche de fome
despem-se as horas devagar
na pele que estremece
sangue que chama
terra que se humedece
toma-se o corpo da vertigem divina
todos os deuses são convocados
e as mãos abrem-se
deixam sair todos os segredos
dormiam à flor da pele
agora,
comprazem-se no calor do mundo
Ana Saraiva

Descaminhos…

Tenho pena das pessoas que, mudando de ideias e de convicções, mudam simultaneamente de sensibilidade política e social, sobretudo daquelas que, com a idade, passam da esquerda para a direita (estou a lembrar-me, por exemplo, de um João Carlos Espada ou de uma Zita Seabra). As ideias e as convicções são voláteis e fungíveis e têm, em nós, cronologia: a sensibilidade envolve todas as inteligências do corpo. Quem muda de sensibilidade é como se mudasse de corpo e como se negasse ou travestisse uma parte importante de si. Deve ser muito doloroso fazer esse caminho. Uma dor, ademais, que eu não respeito…
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Viver não custa…

Tomei hoje uma decisão de inequívoca amplitude patriótica: vou fundar-me, quero dizer, criar uma Fundação. A designação (Fundação Ademar Santos) poderá parecer-vos algo narcísica, mas a verdade, verdadinha é que me limito a seguir o exemplo de Calouste Gulbenkian, Cupertino Miranda, António de Almeida, Eugénio de Andrade, Mário Soares, António Champalimaud, meus ilustres predecessores e inspiradores. Não sei ainda que património legarei à Fundação, mas estou tranquilo relativamente ao futuro; posso garantir-vos que o financiamento dos projectos e das actividades, através de generosas subvenções estatais, está garantido (os meus amigos no governo já me felicitaram pelo patriotismo fundacional). E há-de ainda sobrar algum para o Presidente do Conselho de Administração, que, naturalmente, serei eu.
Viver, meus caros leitores, não custa…

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Antologia poética (132)…

Improviso quase musical…
Entre harpas e cítaras
marés vagarosas
a tua voz ondula
fico à espera do movimento das águas
como se nelas devesses ter escrito
a partitura de um destino qualquer
enquanto afogo o olhar no horizonte
dos abismos que naufragas
braço a braço perna a perna
e canso-me de adiar no teu corpo
a harmonia.
Ademar
14.11.2005
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Embaraços…

Talvez já vos tenha acontecido, entrardes no carro errado. A mim, acontece-me com alguma frequência (sobretudo, em postos de abastecimento). Ontem, por exemplo. Estava tão distraído com os títulos do Público que acabara de comprar na loja de conveniência que nem dei conta de que estava a entrar num carro que não era o meu. Continuei a ler, até que percebi que alguém queria entrar. Era o condutor do automóvel que eu invadira. Sorte a minha: ele tinha um ar simpático e compreensivo. Nem tive de explicar; ele limitou-se a perguntar, com um sorriso misericordioso, se eu não me importava de sair, para poder continuar viagem. O meu embaraço deve ter sido histórico. Olhei em volta e concluí, numa fracção de segundos, que, uma vez mais, entrara num carro que não me pertencia. Saí, desfiz-me em desculpas e afastei-me. Pergunto-me se será sintoma de genialidade (tardia) ou de Alzheimer…
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Dicionário das palavras que eu amo (42)…

FAMA – Durante muitos milénios, a FAMA foi póstuma. A guerra e a morte faziam a FAMA de muito poucos e numa área territorial muito restrita.Depois, a FAMA começou a confundir-se com a história. Só muito mais tarde, com a imprensa e a circulação da informação, a FAMA deixou de ser apenas póstuma. Hoje, com a globalização instantânea da informação, até um nascituro ou um recém-nascido é famoso. A televisão garante a FAMA a qualquer irrelevância. Por vezes, imagino-me regressado a uma idade sem livros, sem jornais, sem televisão, sem rádio, sem internet. Como viveríamos, se o nosso conhecimento não fosse além dos horizontes que os nossos olhos alcançassem?… De vez em quando, pelo menos, deveríamos, higienicamente, fazer esse exercício, para aprendermos a viver connosco e com aqueles que nos rodeiam.
INTIMIDADE – Concordo absolutamente com Borges: “Não aconselho ninguém a ser famoso; o melhor é ser secreto”. O gozo da INTIMIDADE reclama discrição e pudor. É preciso entrarmos, silenciosamente, em nós para nos darmos conta. A exuberância das janelas e dos espelhos distrai-nos e diminui-nos.
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Antologia poética (131)…

Improviso sobre uma condição…
Confesso que errei
errei por todos os enganos e altares
a que me deixei conduzir
errei na crença estúpida
de que há igrejas humildes
sem deuses e sem cultos
e que há mestres que são messias
e messias que são mestres
errei no caminho da pregação
e nas suas margens também
e errei a medida da utopia
alimentando desmedidamente o mito devorador
não discuti a história
e os seus labirintos
e fui ingénuo mil vezes ingénuo
como só pode ser
quem se dilui na paixão embriagadora
errei talvez o tempo
e a condição.
Ademar
22.11.2005
publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt