O desejo para prosa e poesia…

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Podias ser tu. Podias ser… ninguém. Uma silhueta é apenas uma silhueta. Uma sombra que passeia diante do desejo. E que o desejo raramente alcança. O desejo nasceu órfão de pai e de mãe…
Ou…
Podias ser tu
podias ser… ninguém
uma silhueta
uma silhueta apenas
sombra passeando diante de um desejo
que raramente te alcança
sei-me por ti
órfão de pai e de mãe…
Ademar
30.09.2006

Improviso sobre a confiança…

Confiei-te provavelmente o que não devia
a confiança
há quem viva debaixo do palco
como os ratos
há quem viva debaixo de si
confiei-te a ilusão da verdade
e tu desiludiste-te
a mentira destrói apenas quem a transporta.

Ademar
30.09.2006

Antologia poética (137)…

Improviso sob a forma de algemas…
Confesso que não sei
o que é ir preso
mas já experimentei
todos os estados de prisão
há algemas
que nos prendem por dentro
a berços imaginários.
Ademar
09.11.2005
publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (136)…

Improviso sobre uma tela de Guilhermina Suggia…
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Há telas que não passam de espelhos
como essa da Tate Gallery
interpretarias talvez
a Suite para Violoncelo nº4
de Johann Sebastian Bach
ou segurarias apenas entre as coxas
o instrumento erecto sobre o espigão
o arco suspenso sobre as cordas
naquela pose altiva de amante
que os braços prolongam
em direcção ao desejo ambíguo do pintor
violoncelavas-te.
Ademar
03.11.2005
publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Sexo! (diz ela)…

Entrou-me pelo gabinete com passo decidido e a fogueira da delação no olhar: “Professor Ademar: estão uns meninos nos computadores a ver sexo!…” Como faço sempre nestas circunstâncias, fingi, para ganhar tempo, que não tinha percebido muito bem o sentido da observação e pedi-lhe que repetisse. Fê-lo exactamente nos mesmos termos: “Estão uns meninos nos computadores a ver sexo!”. E ficou à espera da minha reacção. Levantei-me da cadeira e pedi-lhe que me conduzisse ao local do crime. Atalhou imediatamente que não valia a pena, porque eles já tinham fugido. Para não a frustrar, pedi-lhe que me dissesse quem eram os meninos. Ela pôs um ar muito zangado e respondeu-me: “Acha que eu sou queixinhas? Só quis que soubesse que eles estavam a ver sexo. Mas não lhe vou dizer quem eram.” E saiu porta fora, tão resolutamente como entrara.
O sexo, na adolescência, é um excelente pretexto para o jogo do gato e do rato…
Novembro.2005
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Antologia poética (135)…

Improviso crepuscular…
Um whisky talvez no fundo de um copo transparente
que não discute marca nem procedência
um cigarro por queimar
um daqueles que matam
entre a esterilidade e a disfunção eréctil
o fumo do clarinete
no horizonte do jazz
e a memória do bailado das palavras
na voz incendiada do Fernando Alves
ele escreveria incendiária
há um sopro de poesia selvagem
nesta trôpega desordem dos dias
que caminham para o crepúsculo
hoje já não espero mais notícias de Bogotá
senão pela posta-restante
abrirei o livro esquecido de mim
numa página qualquer
e retomarei o enredo
exactamente no ponto em que
a vírgula me perdera.
Ademar
11.11.2005
publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Poetas cantantes…

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Em bom rigor, não é galego, porque nasceu no antiquíssimo reino de Leão, mas sempre associei a sua fala tão próxima da nossa à Galiza, até porque o primeiro vinil que comprei de Amancio Prada (ainda nos anos setenta) era um tributo à grande poetisa galega Rosalía de Castro.
Amancio Prada é, de facto, um cantor de poetas, poetas de todas as idades. Neste cd, que vos recomendo, ele canta Cunqueiro, Lorca e García Calvo, o extraordinário García Calvo que foi quase tudo na vida: poeta, dramaturgo, filólogo, filósofo, académico…
Retirei-o ontem, por acaso, da estante dos discos esquecidos e voltei a apaixonar-me por ele. Há amores que são e nos fazem eternos…
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Antologia poética (134)…

Improviso em forma de nocturno…
Há quem durma fora das noites
e desperte apenas para dentro
sei de janelas que não abrem
para horizonte algum
entram e saem por todas as manhãs.
Ademar
08.11.2005
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Antologia poética (133)…

Improviso sobre a infância…
Excedo-me de brinquedos que já não brincam
mas ainda me acrianço
quando voo as noites em pensamentos
que sonham
a infância é apenas
este tempo de recreio interior
um pátio abrigado um quarto longínquo
que já nem a memória habita
onde solitariamente
continuo a coleccionar palavras
como feitiços
nascem-me assim os poemas.
Ademar
08.11.2005
publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt